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UM PONTO DE VIRADA NO DIAGNÓSTICO LABORATORIAL: POR QUE NÃO PODEMOS ADORMECER

Há uma quebra de paradigma em curso, uma mudança cultural que lança luz sobre uma causa coletiva: a garantia de um manejo clínico eficiente e da segurança do paciente coloca os laboratórios de análises clínicas em evidência

Por Maria Elizabeth Menezes *

 

No ano em que eu me formava na faculdade de Farmácia, nascia, coincidentemente, a Declaração de Alma-Ata, que foi um chamado para que os governos mundiais determinassem políticas para implementar a atenção primária à saúde. Em 1978, o tema se estabelecia, assim, como prioridade na nova ordem econômica mundial. Mas nem sempre temos clareza sobre o quanto o ambiente influencia nossas decisões. O fato é que eu só fui mesmo me encontrar profissionalmente quando descobri o mundo dos laboratórios de análises clínicas, onde era latente a chance de se fazer a diferença nesse novo contexto.

 

No diagnóstico laboratorial, eu me encantei com os estudos na área de virologia, principalmente porque não havia – e ainda não existem – medicamento para algumas viroses, também pela dificuldade do diagnóstico. E foi no doutorado, nos Estados Unidos, que um mundo se abriu para mim. Um mundo de oportunidades em pesquisa, ensino e tecnologia. Trabalhei em um instituto de biologia molecular e, depois, como cientista associada na Universidade da Califórnia em Los Angeles, a UCLA. Só que eu estava determinada a retornar ao Brasil e cumprir com a minha palavra: aplicar tudo o que eu havia aprendido em prol do desenvolvimento do meu País.

 

Essa é uma longa história, mas quero me ater a um dos momentos mais significativos dela: o ano de 1997, quando abri meu próprio laboratório, no meu estado natal, Santa Catarina. Essa decisão me trouxe o que eu mais sonhava ter: um grupo de pessoas, todas com doutorado ou, no mínimo, mestrado – o que se exigia na época para manter um laboratório de biologia molecular, segundo as regras vigentes no exterior – fazendo pesquisa e aplicando novos conhecimentos à prática laboratorial. Dentro desse laboratório, claro que fizemos saúde pública. Afinal, hoje, 95% dos exames do SUS são realizados por laboratórios privados, nada muito diferente daquela época.

 

Nessa jornada, a doença que eu mais estudei e mais gostei de ter estudado foi a fibrose cística, que afeta, principalmente, pessoas de baixa renda. Crianças eram detectadas com a doença aos cinco, seis anos de idade, podendo vir a óbito a qualquer momento se não tivessem o diagnóstico correto, ou se a família não aderisse ao tratamento indicado, o que era muito normal. Na época, a fibrose cística dava uma sobrevida média às crianças, dependendo da mutação genética, de 10 a 14 anos, sem falar em outras possíveis complicações. Tivemos diversos projetos aprovados junto às agências de fomento, combinando pesquisa e desenvolvimento com as atividades do laboratório privado. Conseguimos desenvolver um kit diagnóstico que abrangia 90% das mutações da fibrose cística, e realizávamos os exames gratuitamente para hospitais da rede pública.

 

Essa passagem da minha vida ilustra algo em que sempre acreditei: é importante não adormecer. E essa premissa passa por se perguntar, especialmente nos momentos difíceis: “O que me satisfaz é gerar resultado financeiro, simplesmente, ou também me atualizar tecnológica e cientificamente, ter autoridade para discutir os resultados diagnósticos, melhorar a segurança do paciente e, em última instância, trabalhar em prol da saúde das pessoas?”.

 

Portanto, não foi exatamente uma coincidência a série de acontecimentos que me trouxeram à Sociedade Brasileira de Análises Clínicas. Enquanto sociedade científica, a SBAC serve ao setor como uma guardiã do conhecimento, das boas práticas laboratoriais e da educação continuada. Mas não para por aí.

 

A SBAC, enquanto sociedade que representa a comunidade laboratorial em toda a sua diversidade e complexidade, acredita no poder dos laboratórios e dos analistas clínicos. E esta não é uma mera declaração institucional. É uma visão que nasceu das decisões – minhas e das lideranças que me antecederam na sociedade – que tomamos no passado, sob influência, claro, das forças externas que nos cercavam. Pode ser que uma coisa leve à outra, mas senso de missão é uma constante – depois que você o adquire, é difícil deixá-lo pelo caminho.

 

Portanto, o diagnóstico laboratorial, como responsável por 70% da decisão clínica de um paciente e fundamental para a expansão da atenção primária à saúde, precisa sair de trás da bancada e assumir seu protagonismo para a promoção da saúde da população. Essa conquista depende daqueles que são a alma do laboratório: os analistas clínicos. Farmacêuticos, biomédicos, biólogos, enfermeiros, médicos, entre outros especialistas que, num conjunto de competências e processos, garantem a qualidade e excelência laboratorial. Todos são essenciais na jornada do paciente e, quando amparados por conhecimento técnico-científico e clínico-laboratorial, atribuem confiabilidade e acuracidade aos laudos laboratoriais.

 

O reconhecimento da comunidade laboratorial no cenário das políticas públicas de saúde também passa por uma gestão capaz de conciliar os desafios econômicos da nossa atividade com a nossa razão de existir: levar saúde à população. E uma sociedade científica com quase seis décadas de história não poderia atuar ou se posicionar de outra maneira que não pautada por evidências científicas.  Esse é o norte de uma defesa por qualidade do diagnóstico laboratorial, e que nos protege de uma visão puramente mercadológica e tendenciosa.

 

Há uma quebra de paradigma em curso, uma mudança cultural que lança luz sobre uma competência e uma conquista coletivas: a garantia de um manejo clínico eficiente e da segurança do paciente. Profissionais e entidades que não se ajustarem a essa nova realidade ficarão obsoletos. Por isso, precisamos, mais do que nunca, ter clareza e lucidez sobre as causas que nos são úteis, e estarmos em uma comunidade nos torna mais fortes e aptos.

 

Nos próximos dias, com a aproximação de mais uma edição do Congresso Brasileiro de Análises Clínicas (CBAC), que se dará entre 16 e 19 de junho, voltarei aqui para contar sobre aquele que será um dos grandes marcos da história da SBAC e do setor de análises clínicas.

 

 

* Maria Elizabeth Menezes é presidente da Sociedade Brasileira de Análises Clínicas, cumprindo, atualmente, o seu segundo mandato na entidade. É farmacêutica de formação, doutora em Ciências/Microbiologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e pioneira na aplicação das tecnologias de biologia molecular nas análises clínicas no Brasil.