USP produz proteína para recuperar osso
Em três anos, numa visão otimista ou cinco, na pessimista, o Brasil terá seu primeiro biofármaco 100% nacional para reposição óssea. O desenvolvimento científico do produto é de responsabilidade do Instituto de Química da USP (Universidade de São Paulo). Os cientistas já têm um acordo com uma empresa brasileira, que será a responsável por dar escala comercial ao invento.
"O fato de o produto ser feito exclusivamente no Brasil vai diminuir os custos da aplicação para o Sistema Único de Saúde", explica Mari Cleide Sogayar, principal responsável pelo projeto. O grande salto evolutivo que o grupo conseguiu foi domar a superproteína BMP, que participa de vários processos de crescimento ósseo e de outros tecidos de mamíferos, desde o embrião até a fase adulta. "Ela é uma proteína bastante complexa", diz Sogayar.
Muito conhecidas e usadas nos EUA, duas versões da BMP, a tipo 2 e a tipo 7 (são 15 tipos no total) são identificadas pelos cientistas com a produção de crescimento ósseo. Soma-se a isso o fato de, desde os anos 1960, os pesquisadores já conhecerem os genes responsáveis pela síntese da BMP.
Com esses ingredientes todos dentro do laboratório, o caminho era conseguir, a partir de uma linhagem de células retiradas do ovário de um hamster, fazer com que a proteína fosse sintetizada. "O grande desafio é conseguir uma quantidade importante de proteína e que ela tenha a atividade desejada", afirma Erik Halcsik, que também participa dos trabalhos na USP.
E o grupo, aparentemente, conseguiu. Os novos genes são colocados por meio de vetores (anéis de DNA nos quais os cientistas inserem os genes de interesse) dentro das células. Eles acabam sendo inseridos no genoma normal das estruturas celulares que, portanto, vão produzir a proteína desejada.
Após vários testes, que mostraram quais os ingredientes da receita de bolo precisavam ser melhor trabalhados, o grupo da USP decidiu que tudo estava pronto. Os primeiros testes, então, foram feitos. E as pesquisas conseguiram promover o crescimento ósseo em camundongos. Foram seis anos de trabalho desde o início do projeto.
Células-tronco
A parte da aplicação da nova proteína no paciente também escapa do dilema ético. Não existe material celular na injeção do novo produto. "Apenas é feita a aplicação da proteína, combinada com material inerte (osso moído)", diz Sogayar.
Na seqüência, então, quem vai entrar no circuito são as próprias células-tronco adultas dos pacientes. Com a proteína servindo de substrato, as células do próprio organismo conseguirão sofrer uma replicação maior e, com isso, formar mais tecido ósseo. Até ossos da boca, importantes para os transplantes dentários, por exemplo, poderão ser obtidos por esse método.
Fonte: Folha de S.Paulo |