GESTÃO DE LABORATÓRIOS

 
15/10/2005

VALORES ÉTICOS MÍNIMOS
Dra. Mie D'Alessandro

Temos vivido nos últimos quinze anos uma mudança radical no modo de trabalho dos laboratórios de análises clínicas brasileiros. Essa mudança começou com a implantação em larga escala da automatização, acompanhando uma tendência mundial de miniaturização: de volume de amostra, volume de reagentes e, no final minimização da remuneração dos nossos serviços. No contexto da economia brasileira, nesse mesmo período tivemos mudanças drásticas: picos de inflação, seqüestro de dinheiro, estabilização da moeda, planos e mais planos econômicos, enfim vivemos um carrossel de emoções. E como o nosso setor reagiu? Como bom agente econômico, procurou se adaptar aos novos tempos, muitas vezes sacrificando lucro em nome da produtividade e do volume de serviços. Temos uma característica: sabemos fazer benchmarking muito antes desse conceito entrar em moda. Copio tudo o que meu concorrente faz porque ele deve estar certo. Só que não copiamos só os aspectos positivos, aquilo que realmente irá acrescentar algo ao nosso serviço. Como resultado ficamos como um bando de errantes, indo de um lado para outro, sem um planejamento, sem vislumbrar um horizonte e empobrecendo cada vez mais.

Nossa atividade tem dois aspectos distintos: temos o lado técnico e o lado comercial. Não dá para separar os dois. Eles têm que caminhar juntos para que o serviço que prestamos tenha qualidade e preço. Nossos serviços complementam o diagnóstico. Portanto devemos dar ao médico clinico a melhor informação possível. Isso se consegue com profissionais qualificados e atualizados; reagentes e equipamento de qualidade. Quanto a essa parte, que é essencialmente técnica, nossas sociedades cientificas tem cumprido sua função com empenho lutando por uma atualização cientifica continuada e também pela moralização do setor.

Quanto à outra parte, a comercial, que responde por nossa sobrevivência, muito pouco tem sido feito. Primeiro porque, por estatuto, as diversas entidades não podem interferir numa relação comercial estabelecida entre duas pessoas jurídicas (laboratório e tomador de serviços); segundo, porque a ética foi posta de lado. Vale dizer que a famosa "lei de Gerson" está em vigor. Muitos colegas ao aceitarem trabalhar por preços muito baixos porque acreditam que vão ganhar através do aumento de volume de serviços, não sabem que estão encurtando seu horizonte de trabalho e o pior, estão comprometendo todo o setor de análises clinicas. Todo o aprimoramento que o bom desempenho técnico exige tem custo e isso muitas vezes é ignorado pelos mais afoitos, que ao combinarem um preço, esquecem que terão que repor essa despesa.

O ultimo movimento: aquisições e fusões de laboratórios vem provar uma reengenharia do setor, com uma ótica de otimização do uso de equipamentos e de pessoal e conseqüente diminuição dos custos operacionais. Também mostrou que, se estamos desanimados achando que o sistema de saúde brasileiro está falindo, o capital estrangeiro não está. Existe luz no final do túnel!

A discussão sobre o futuro do setor é constante em todos os encontros e o que nos preocupa a todos é aonde essa competição interna desenfreada nos levará. Temos ouvido de representantes dos tomadores de serviços: se você não aceita trabalhar por esse preço, tem quem o faça.

Precisamos mudar de postura; acreditar na importância da nossa atividade dentro do contexto da saúde do país e nos conscientizarmos que precisamos ser éticos no relacionamento com nossos parceiros, sejam eles quais forem.

Dra. Mie D'Alessandro é ex-presidente da SBAC – SP

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