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VALORES
ÉTICOS MÍNIMOS
Dra.
Mie D'Alessandro
Temos
vivido nos últimos quinze anos uma mudança radical
no modo de trabalho dos laboratórios de análises clínicas
brasileiros. Essa mudança começou com a implantação
em larga escala da automatização, acompanhando uma
tendência mundial de miniaturização: de volume
de amostra, volume de reagentes e, no final minimização
da remuneração dos nossos serviços. No contexto
da economia brasileira, nesse mesmo período tivemos mudanças
drásticas: picos de inflação, seqüestro
de dinheiro, estabilização da moeda, planos e mais
planos econômicos, enfim vivemos um carrossel de emoções.
E como o nosso setor reagiu? Como bom agente econômico, procurou
se adaptar aos novos tempos, muitas vezes sacrificando lucro em
nome da produtividade e do volume de serviços. Temos uma
característica: sabemos fazer benchmarking muito antes desse
conceito entrar em moda. Copio tudo o que meu concorrente faz porque
ele deve estar certo. Só que não copiamos só
os aspectos positivos, aquilo que realmente irá acrescentar
algo ao nosso serviço. Como resultado ficamos como um bando
de errantes, indo de um lado para outro, sem um planejamento, sem
vislumbrar um horizonte e empobrecendo cada vez mais.
Nossa atividade tem dois aspectos distintos: temos o lado técnico
e o lado comercial. Não dá para separar os dois. Eles
têm que caminhar juntos para que o serviço que prestamos
tenha qualidade e preço. Nossos serviços complementam
o diagnóstico. Portanto devemos dar ao médico clinico
a melhor informação possível. Isso se consegue
com profissionais qualificados e atualizados; reagentes e equipamento
de qualidade. Quanto a essa parte, que é essencialmente técnica,
nossas sociedades cientificas tem cumprido sua função
com empenho lutando por uma atualização cientifica
continuada e também pela moralização do setor.
Quanto à outra parte, a comercial, que responde por nossa
sobrevivência, muito pouco tem sido feito. Primeiro porque,
por estatuto, as diversas entidades não podem interferir
numa relação comercial estabelecida entre duas pessoas
jurídicas (laboratório e tomador de serviços);
segundo, porque a ética foi posta de lado. Vale dizer que
a famosa "lei de Gerson" está em vigor. Muitos
colegas ao aceitarem trabalhar por preços muito baixos porque
acreditam que vão ganhar através do aumento de volume
de serviços, não sabem que estão encurtando
seu horizonte de trabalho e o pior, estão comprometendo todo
o setor de análises clinicas. Todo o aprimoramento que o
bom desempenho técnico exige tem custo e isso muitas vezes
é ignorado pelos mais afoitos, que ao combinarem um preço,
esquecem que terão que repor essa despesa.
O ultimo movimento: aquisições e fusões de
laboratórios vem provar uma reengenharia do setor, com uma
ótica de otimização do uso de equipamentos
e de pessoal e conseqüente diminuição dos custos
operacionais. Também mostrou que, se estamos desanimados
achando que o sistema de saúde brasileiro está falindo,
o capital estrangeiro não está. Existe luz no final
do túnel!
A discussão sobre o futuro do setor é constante em
todos os encontros e o que nos preocupa a todos é aonde essa
competição interna desenfreada nos levará.
Temos ouvido de representantes dos tomadores de serviços:
se você não aceita trabalhar por esse preço,
tem quem o faça.
Precisamos mudar de postura; acreditar na importância da nossa
atividade dentro do contexto da saúde do país e nos
conscientizarmos que precisamos ser éticos no relacionamento
com nossos parceiros, sejam eles quais forem.
Dra. Mie D'Alessandro é ex-presidente da SBAC –
SP |