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ESTADO
DE ALERTA
Martha
San Juan França
Estará
o mundo às vésperas de uma nova pandemia, como aquela
que matou 40 milhões de pessoas em 1918-19 e ficou conhecida
como gripe espanhola? É possível.
A
questão está sendo encarada com preocupação
pela Organização Mundial de Saúde (OMS), desde
que a chamada gripe aviária, ou gripe do frango, fez sua
primeira aparição há sete anos, em Hong Kong.
Na época, descobriu-se que o vírus de uma gripe, até
então só detectado em aves, sofrera uma mutação
genética, tornando-se transmissível para os seres
humanos.
Era
um sinal há muito esperado e temido pelos epidemiologistas.
O mesmo vírus que causou a gripe espanhola, a influenza que
aterrorizou o mundo no princípio do século passado,
é universal na natureza e apresenta taxas de mutação
elevadas, o que torna a vacinação necessária
todos os anos.
Desde
1952, uma rede composta de 4 centros e 112 instituições
em 83 países, a Who Global Influenza Surveillance Network,
coleta amostras do vírus em circulação e determina
sua caracterização genética para compor a vacina.
A rede serve também como um alerta para a emergência
de uma pandemia em potencial. No Brasil, participam os institutos
Oswaldo Cruz (RJ), Adolpho Lutz (SP) e Evandro Chagas (PA).
Esses
laboratórios também fazem parte do Sistema de Vigilância
da Influenza do Ministério da Saúde, criado em 2000,
que conta com 24 unidades sentinelas. A função do
sistema é monitorar as cepas do vírus da influenza
que circulam nas cinco regiões do País.
Por
que tanto trabalho para controlar uma doença que, em geral,
se resolve com vitamina C e cama? O monitoramento do vírus
mostrou que ele continua se espalhando. Desde dezembro de 2004,
novos casos foram diagnosticados em humanos. Até o mês
passado, 134 pessoas foram hospitalizadas com diagnóstico
de gripe aviária, com 57 mortes.
Por
enquanto, a doença parece não ser transmitida de pessoa
para pessoa, mas apenas de aves para humanos. O que os especialistas
da OMS mais temem, porém, é que comece a transmissão
entre humanos - como ocorreu em outras três graves pandemias
de gripe.
O
processo de troca genética pode produzir um subtipo completamente
diferente, para o qual poucos humanos teriam imunidade natural.
As vacinas existentes, desenvolvidas para proteger as pessoas durante
pandemias sazonais, não seriam eficazes contra um novo vírus.
Além disso, o tempo médio entre a identificação
de uma nova cepa e a produção de uma vacina é
de quatro a seis meses. No mundo globalizado, durante esse tempo,
o vírus já teria se espalhado por todos os continentes.
Somente
se poderá evitar uma pandemia global de gripe se os surtos
locais forem rapidamente identificados e isolados, como ocorreu
na época da matança dos frangos de Hong Kong, diz
o diretor-geral da OMS, Lee Jong-Wook. "A detecção
a tempo é importantíssima. Quando há sinais
de um surto, não sabemos quando ele vai nos atingir e, de
repente, acordamos uma manhã e vemos um milhão de
casos. Aí já é tarde demais."
O
problema é que não existem vacinas capazes de proteger
as pessoas infectadas pelo H5N1 (o agente transmissor), embora a
OMS esteja trabalhando com os laboratórios da rede para desenvolver
um protótipo. Atualmente, existem quatro diferentes medicamentos
antivirais contra o vírus da influenza tipo A, mas algumas
cepas costumam apresentar resistência a eles, o que pode ocorrer
numa pandemia.
Nesse
caso, cada país afetado teria que arcar com o tratamento
dos doentes. As pessoas que tiveram gripe aviária em Hong
Kong, Tailândia e Vietnã apresentaram febre, dores
musculares, infecção nos olhos, pneumonia e doenças
respiratórias severas. Foi necessário hospitalizá-las.
"Em
um mundo no qual a maioria dos países não tem condições
econômicas nem infra-estrutura sanitária adequadas,
seria difícil impedir que uma pandemia desse tipo se alastrasse",
diz a jornalista Laurie Garrett, autora do livro "The Coming
Plague, Newly Emerging Diseases in a World Out of Balance",
em artigo na revista "Foreign Affairs". De fato, o Centro
de Controle de Doenças (CDC) dos EUA fez um cálculo
catastrófico dos efeitos de uma pandemia desse tipo em solo
americano.
Sem
medidas de controle (vacina e medicamentos específicos),
entre 15 e 35% da população seriam afetados pela pandemia
e seu impacto econômico giraria em torno de US$ 71,3 e US$
166,5 bilhões.
Uma
pandemia de nível médio causaria entre 89 mil e 207
mil mortes nos EUA. Haveria de 314 mil a 734 mil hospitalizações
e seriam realizados entre 16 e 42 milhões de visitas médicas.
Entre 20 e 47 milhões de pessoas ficariam doentes. Pela estimativa
do CDC, uma pandemia de influenza seria muito mais catastrófica
que outras, como a aids, por exemplo, porque afetaria a maior parte
da população ativa e principalmente os trabalhadores
da saúde, que estariam sob maior risco de exposição.
O
assustador é que o agente transmissor foi detectado recentemente
em aves no Camboja, China, Indonésia, Japão, Laos,
Coréia do Sul, Tailândia e Vietnã, além
do Cazaquistão, Mongólia e Rússia. Nesses três
últimos países, foi trazido por pássaros selvagens
que entraram em contato com aves domésticas.
A
última notícia é de que o vírus foi
encontrado pela primeira vez na União Européia, por
meio da importação ilegal de aves. O agravante é
que existem espalhados pelo mundo três tipos de vírus
de influenza (A, B e C), divididos em mais de uma dezena de subtipos,
que também se diferenciam em cepas. Quando uma nova cepa
aparece, o sistema imunológico, que havia desenvolvido anticorpos
contra a cepa antiga, não está preparado para combater
a variante e a pessoa precisa ser vacinada novamente.
As
aves selvagens são reservatórios naturais dos subtipos
do vírus do influenza tipo A. Embora não adoeçam
quando infectadas, podem transmitir o vírus para aves domésticas.
No século XX, três grandes pandemias foram causadas
por um subtipo do vírus da influenza tipo A que passou das
aves domésticas para os humanos. A primeira e mais perigosa
foi a gripe espanhola. Mas houve outros grandes surtos de doença,
em 1957-58 e em 1968-69.
A
chamada gripe asiática, de 1957-58, causou 70 mil mortes
nos EUA, e a gripe de Hong Kong, de 1968-69, foi responsável
por 34 mil mortes naquele país. Nos três casos, o ataque
veio de um subtipo perigoso do vírus da influenza tipo A,
o mesmo que foi detectado agora no Sudeste Asiático, que
havia ultrapassado a barreira das espécies, passando das
aves para os humanos.
Há
sete anos, em Hong Kong, 18 pessoas foram hospitalizadas e 6 morreram
da doença. Para acabar com o agente transmissor, foram sacrificados
cerca de 1,5 milhão de frangos, quase o total da produção
local. Mesmo assim, no fim de 2003, a mesma cepa do vírus
da influenza voltou a aparecer, e em mais de um lugar do Sudeste
Asiático. Houve nova matança de frangos. Só
a Tailândia, quarto exportador no mundo, teve de sacrificar,
no início de 2004, cerca de 40 milhões de frangos.
Calcula-se que a região afetada já tenha contabilizado
um prejuízo superior a US$ 10 bilhões.
Estudos
baseados em modelos de computador, publicados nas revistas científicas
"Nature" e "Science", comprovam que seria possível
conter uma pandemia com diagnóstico rápido, quarentena
de doentes e tratamento em massa com medicamentos antivirais. "Tudo
depende da rapidez com que essas medidas venham a ser implantadas",
afirma Neil Ferguson, do Imperial College de Londres e um dos autores
do estudo da "Nature". Esses estudos se baseiam em dados
estatísticos obtidos na Tailândia, país dos
mais vulneráveis à doença.
Países
como França, Inglaterra, Canadá e Austrália
anunciaram programas de prevenção que incluem a proteção
das pessoas mais expostas ao risco, como veterinários e trabalhadores
das granjas. Busca-se também vacinar essas pessoas contra
a gripe comum, com o objetivo de evitar a mutação
pelo contato das cepas do vírus.
Mas
em países pobres, como o Vietnã, onde o sistema de
saúde é deficiente, é comum a convivência
no mesmo espaço, entre humanos, bois, porcos e frangos, o
que favorece a transmissão.
Em
artigo também na revista "Foreign Affairs", o diretor
do Center for Infectious Disease Research and Policy dos EUA, Michael
Osterholm, usa o caso recente da crise provocada pelo aparecimento
do vírus da Sars (Síndrome Respiratória Aguda
Grave), também chamada pneumonia asiática, como um
exemplo do que pode ocorrer com a influenza.
Em
2003, cerca de oito mil pessoas foram infectadas por esse vírus.
Cerca de 10% morreram. Aparentemente, a doença se espalhou
a partir da carne de animais infectados e abatidos sob condições
insalubres nos mercados da província de Guangdong, na Sul
da China. Vinte e quatro horas depois de ser detectado, o vírus
já havia se espalhado por cinco países. Depois de
alguns meses, estava presente em 30 países dos cinco continentes.
Seis meses de pandemia da Sars causaram um prejuízo de US$
40 bilhões na economia da região Ásia-Pacífico.
No Canadá, 438 pessoas foram infectadas e 43 morreram depois
que uma pessoa trouxe a doença de Hong Kong para Toronto.
O Departamento de Turismo canadense informa que os prejuízos
para o país foram de US$ 419 milhões. O ministro da
Saúde de Ontário estima que foram gastos cerca de
US$ 763 milhões com os cuidados clínicos, preventivos
e proteção de médicos e enfermeiros.
A
Sars também teve impacto enorme sobre a indústria
da aviação. Depois do aparecimento da doença,
as companhias que operavam nas linhas do Pacífico tiveram
queda de 45% nos vôos.
O
impacto maior, no entanto, foi político. Hoje, sabe-se que
a doença provocou o mais severo abalo de confiança
no governo chinês desde o massacre da Praça da Paz
Celestial, em 1989. A crise foi provocada não tanto pelo
impacto da Sars na saúde pública, mas pela tentativa
do governo de ocultar informações da população.
Para
Osterholm, uma pandemia fora de controle e o conseqüente colapso
econômico podem desestabilizar um governo. "No caso de
uma pandemia de influenza, o pânico que ocorreu com a Sars
pode se multiplicar à medida que a doença e as mortes
aumentarem, mês a mês", afirma. "Infelizmente,
a população costuma ficar indiferente aos alertas
iniciais dessas crises, como ocorreu com a aids.
A
indiferença só se transforma em medo depois que a
catástrofe está instalada, quando já é
muito tarde para implementar medidas preventivas e de controle."
Para
Osterholm, esse é um momento crítico. "Devemos
agir com propósito e determinação. Senão,
depois que a próxima pandemia tiver passado, uma comissão,
muito parecida com aquela que foi formada depois do 11 de setembro,
terá que investigar como governos, empresas, autoridades
de saúde pública prepararam o mundo para a catástrofe.
Dá para prever o veredito dessa comissão?" |