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O
DESAFIO DO MEDICAMENTO PERSONALIZADO
A identificação de diferentes
grupos genéticos possibilitará a prescrição
de tratamentos individuais
Kerry Capell, Michel Arndt e John Carey
BusinessWeek
No dia que o John P. Kane começou sua residência na
Universidade da Califórnia, no San Francisco Medical Center,
em 1959, ele recebeu uma ligação telefônica.
Seu pai, Paul - um general do Exército aposentado que havia
sobrevivido a combates nas duas guerras mundiais, nunca fumou e
não apresentava problemas de saúde aparentes - havia
morrido de um ataque do coração aos 66 anos. A notícia
acabou empurrando Kane para o campo da cardiologia. Quase meio século
depois, suas descobertas poderão alterar o tratamento da
doença que mais mortes provoca no mundo industrializado.
Trabalhando com sua parceira de laboratório de longa data,
e esposa, Mary J. Malloy, no Instituto de Pesquisas Cardiovasculares
da Universidade da Califórnia, Kane chegou a algumas conclusões
surpreendentes: pelo menos metade das variações genéticas
ligadas aos ataques do coração não têm
relação óbvia com os níveis de colesterol,
pressão sangüínea ou qualquer outro dos aspectos
comuns às doenças do coração. Ao invés
disso, elas sugerem mecanismos como inflamações, que
podem ser provocadas por infecções ou um sistema imunológico
com problemas. Isso implica que pode haver várias formas
de doenças do coração, assim como há
múltiplas formas de câncer.
Se
Kane estiver certo, os médicos poderão mapear o DNA
dos pacientes e prever não só se eles têm propensão
a um ataque do coração no futuro, como o tipo de doença
do coração que eles poderão ter e que tipos
de medicamentos ou procedimentos poderão funcionar em cada
caso. Ao invés de receitar uma pílula para redução
do colesterol, eles poderão optar por um antiinflamatório,
por exemplo. Outros especialistas compartilham da convicção
de Kane, incluindo diretores da Celera Diagnostics que teve como
um dos fundadores o pioneiro do genoma J. Craig Venter. A Celera
lançará, em poucos anos, um teste genético
para doenças do coração, baseado em grande
parte nas pesquisas de Kane. "Estamos rumando para o mar aberto",
diz Kane.
A
mudança para os medicamentos elaborados para determinados
perfis genéticos vai provocar alterações enormes
numa indústria há muito tempo devotada a tratamentos
que podem ser empregados em milhões de pessoas. A maioria
dos medicamentos vendidos sob receitas são hoje eficazes
para menos da metade das pessoas que os ingerem - e os efeitos colaterais
podem ser piores que as doenças. "Do ponto de vista
estratégico, do atendimento das necessidades de nossos clientes,
o modelo atual de medicamentos de grande vendagem não funciona
mais", diz Sidney Taurel, principal executivo e presidente
do conselho de administração da Eli Lilly.
As
companhias farmacêuticas sofrem muito quando um chamado "blockbuster"
fracassa - conforme ficou demonstrado pela Merck. Em 19 de agosto
um júri do Texas declarou a Merck culpada pela morte, em
2001, de um paciente que estava usando o analgésico Vioxx,
uma decisão que custou à empresa US$ 253 milhões.
Bem antes dos problemas com o Vioxx, as grandes companhias farmacêuticas
e a biotecnologia já haviam começado a explorar os
medicamentos personalizados. Esses esforços deverão
ganhar força, afirma Robert Goldberg, diretor do Center for
Medical Progress, centro de estudos especializados em políticas
públicas. "Se as companhias farmacêuticas não
seguirem o caminho do entendimento e responder às tremendas
variações genéticas na maneira como reagimos
aos medicamentos, haverá mais litígios, e não
menos", diz.
Chegar
a esse entendimento é um desafio porque uma doença
nunca é um fenômeno simples. Pesquisadores têm
mostrado que há muitas variedades de câncer de seio
e leucemia, e o mesmo certamente acontece com outros tipos de câncer,
doenças coronarianas e males neurodegenerativos - com cada
variedade atingido subgrupos diferentes de pessoas, com base na
vulnerabilidade genética. Os médicos estão
tentando identificar diferenças entre grupos através
de testes de DNA, na esperança de que os tratamentos também
possam ser feitos sob encomenda. A idéia é que cada
um de nós receberá os medicamentos que funcionam melhor,
com base no subgrupo ditado por nossos genes.
A
medicina personalizada caminha para uma progressão natural.
Em primeiro lugar, o mapeamento genético vai resultar em
diagnósticos mais precisos. Em seguida, os médicos
irão receitar medicamentos que irão ajudar, e não
provocar mais problemas. Finalmente, haverá uma explosão
de tratamentos para populações específicas.
Isso não significa que os médicos irão produzir
à mão pílulas para cada paciente, mas haverá
tratamentos mais eficazes, menos desperdício - e muito menos
danos colaterais ao estilo do Vioxx.
Um
marco foi a conclusão, em 2003, do mapeamento do genoma humano
- 25 mil genes enrolados em forma de espiral nos cromossomos de
cada célula. Desde então, bancos de dados de DNA vêm
sendo criados com amostras de dezenas de milhares de pessoas. Ao
comparar os genes, os pesquisadores podem ligar variações
e mutações a todos os tipos de doenças.
Certas
companhias farmacêuticas mais visionárias também
vêm realizando esforços dispendiosos para desenvolverem
a medicina personalizada. Abbott Laboratories, Johnson & Johnson
e Roche Holding da Suíça estão aprendendo como
examinar amostras de tecidos ou sangue de um paciente e detectarem
variações genéticas e bioquímicas relevantes,
sempre mencionadas como biomarcas. A Pfizer e a Bristol-Myers Squibb,
entre outras, estão usando essas ferramentas para talhar
produtos farmacêuticos para grupos definidos.
Alguns
triunfos já estão sendo conseguidos. Um dos medicamentos
mais lucrativos da Genentech é o Herceptin, que está
sendo usado para tratar 175 mil pacientes de câncer no seio
em processo de metástase que compartilham uma variação
genética em particular. Os médicos também estão
aprendendo como os genes regulam as enzimas do fígado que
metabolizam os medicamentos, ajudando a evitar efeitos colaterais
adversos.
A
maioria dos remédios vendidos hoje sob receita são
eficazes para menos da metade das pessoas que os ingerem
As
histórias de sucesso ainda são raras. A medicina personalizada
se assemelha à previsão do tempo, baseada em probabilidades
e interpretação de dados. A presença de um
único gene ou combinação de genes torna possível
que uma pessoa venha a desenvolver ou escapar de uma determinada
doença - mas o resultado é incerto.
O campo não só ainda é imaturo como também
está cheio de preocupações com as políticas
públicas e a privacidade. Especialistas temem que pessoas
possam não conseguir seguros de vida, saúde ou até
mesmo um emprego se for descoberto que elas são portadoras
de genes de uma doença debilitante. Além disso, há
também uma discussão sobre o impacto da medicina personalizada
com os gastos com saúde. Eles vão aumentar ou diminuir?
Diagnósticos mais precisos permitiram aos médicos
intervirem mais rapidamente, evitando alguns procedimentos custosos.
Mas os hospitais também poderão pedir mais e mais
testes, indiscriminadamente, para se cobrirem contra possíveis
processos pela falha em detectar doenças, antes que seja
tarde demais.
Os
defensores rebatem, afirmando que se o dinheiro conseguir salvar
vidas, então ele estará sendo bem empregado. Mas a
questão está longe de ser resolvida - e ela é
apenas uma das muitas discussões sobre os custos, benefícios
e cronogramas. Em meio a toda essa altercação, médicos,
executivos das companhias farmacêuticas e pacientes continuam
marchando para a frente, aproveitando os recursos das maiores instituições
acadêmicas, hospitais e agências governamentais do mundo.
Matemático experiente, Heino von Prondzynski, o principal
executivo da unidade de diagnósticos da Roche parece mais
um professor. Mas comente com ele o poder dos diagnósticos
de transformarem a medicina, e este alemão geralmente taciturno
passa a se comportar com um zelo quase missionário. Tirando
um pequeno chip de silício do bolso da camisa, von Prondzynski
afirma que o dispositivo - que não é maior do que
um selo postal -, e outros como ele, irá lançar as
bases de uma nova era nos tratamentos de saúde, possibilitando
diagnósticos mais precoces e corretos, além de um
tratamento mais personalizado.
Lançado nos Estados Unidos em janeiro, o dispositivo da Roche
- chamado AmpliChip - é o primeiro teste genético
aprovado pela Food & Drug Administration (FDA) para identificar
respostas a uma ampla variedade de medicamentos. Ele detecta variações
genéticas que controlam duas enzimas do fígado responsáveis
pela maneira como os pacientes metabolizam até 25% dos medicamentos
vendidos sob receita médica. Para algumas pessoas, conhecidas
como metabolizadores ultra-rápidos, há muitas dessas
enzimas na corrente sangüínea. Isso leva o organismo
a eliminar os medicamentos tão rápido que eles não
fazem efeito. De 3% a 10% das pessoas têm falta dessas enzimas
e não conseguem metabolizar os remédios, de modo que
eles vão muito rapidamente para a corrente sangüínea,
transformando até mesmo uma dose padrão em uma dose
tóxica. Dispositivos como o AmpliChip, afirma von Prondzynski,
"vão resolver os dois maiores desafios que o sistema
de cuidados com a saúde enfrenta hoje: o custo e a segurança".
Isso poderá economizar enormes somas de dinheiro para a sociedade.
A cada ano, 2,2 milhões de americanos sofrem reações
adversas a medicamentos vendidos sob receita médica. Os custos
do tratamento de reações adversas chega a US$ 4 bilhões
ao ano, só nos Estados Unidos, segundo um estudo do Journal
of the American Medical Association.
A recompensa para a Roche poderá ser enorme. A consultoria
Jain PharmaBiotech estima que as vendas de kits e dispositivos de
diagnósticos moleculares da Roche crescerão dos atuais
US$ 6,5 bilhões ao ano para US$ 12 bilhões até
2010. Hoje, esses testes baseados nos genes são uma pequena
parte das receitas que a Roche consegue com diagnósticos.
A Roche tem uma vantagem nos diagnósticos moleculares. Contra
os conselhos de seus próprios consultores científicos,
a companhia desembolsou US$ 300 milhões em 1991 pelos direitos
de acesso a uma ferramenta chamada reação em cadeia
polymerase (PCR), da Cetus, na Califórnia. Inventada no começo
dos anos 80, a PCR era então uma tecnologia que não
havia passado por muitos testes, que permitia que vestígios
de material genético fossem ampliados para análise.
Poucos na época acreditaram que ela teria potencial de mercado.
Mas os que duvidaram estavam errados. A Roche passou a usar a PCR
como a base dos testes de diagnósticos que detectam de hepatite
ao HIV e câncer.
Anneke Westra experimentou o poder da tecnologia de diagnósticos
da Roche. Onze anos atrás, aos 30 anos, ela era uma cientista
promissora. Apesar de uma longa batalha contra a depressão,
tornou-se especialista em biosensores, viajando pelo mundo para
apresentar estudos científicos. Isso tudo mudou em setembro
de 1994, quando recebeu o diagnóstico de que estava com desordem
bipolar.
Foi o começo de uma luta de uma década. O tratamento
de Anneke envolveu uma dezena de psiquiatras e 18 medicamentos -
cada um parecendo apresentar efeitos colaterais piores que o anterior.
Sua saúde mental e física se deteriorou. Hospitalizada
freqüentemente e incapaz de trabalhar, acabou tentando se matar.
"Perdi dez anos da minha vida com os remédios que me
deram", diz.
O caso de Anneke é extremo mas não é único,
e isso explica porque os médicos e pacientes estão
ansiosos pela medicina personalizada. Uma em cada cinco pessoas
sofre, em algum momento de sua vida, de um processo de depressão
grave o suficiente para ter de ser tratado com medicamentos.
Muitas
dessas pessoas passam meses experimentando uma variedade de drogas,
em dosagens diferentes, antes de chegaram a um medicamento que realmente
funciona - se tiverem sorte. Para 25% dos pacientes, os antidepressivos
mais comuns são ineficazes. Milhões de pessoas mais
sofrem com os efeitos colaterais. Até a Roche lançar
seu AmpliChip, não havia meios confiáveis de monitorar
a família de enzimas encontradas principalmente no fígado
e que ditam como nossos organismos metabolizam os medicamentos.
A
comunidade médica já está se acostumando à
idéia de poder unir diagnósticos e medicamentos
As
pesquisas de Anneke a levaram até a Katherine J. Aitchison
do Instituto de Psiquiatria do King's College de Londres, que confirmou
as suspeitas da paciente. Usando o teste AmpliChip, Aitchison descobriu
que Anneke tem um nível muito baixo no fígado de duas
enzimas que metabolizam medicamentos, o que a torna sensível
demais a numerosos tratamentos.
Milhões de pessoas podem ser como Anneke, segundo afirma
o José de Léon, professor associado de psiquiatria
da Universidade de Kentucky e diretor médico do centro de
pesquisas de saúde mental do Eastern State Hospital de Lexington.
Ele está fazendo um estudo com 4 mil pacientes de psiquiatria
em três hospitais estaduais do Kentucky, para determinar se
a realização de testes em pacientes, para determinar
essas variações genéticas antes da prescrição
de algum medicamento, é viável do ponto de vista dos
custos.
Quatro anos atrás, a principal diretora da FDA, Janet Woodcock,
se encontrou com representantes da indústria farmacêutica
para discutir a promessa da medicina personalizada. "A reunião
era para ser uma convocação", lembra-se Janet,
hoje comissária adjunta da FDA. Mas os executivos das companhias
não estavam prontos para aderir. "As pessoas de levantavam
e diziam: 'Estamos apavorados'."
A reação delas não surpreendeu.
O
uso de medicamentos de maneiras direcionadas levanta questões
científicas, financeiras e normativas. Para as companhias,
pode significar mercados menores para seus produtos e o risco de
eles não conseguirem aprovações da FDA a menos
que consigam provar que o alvo é adequado.
Mesmo com essas preocupações, Janet é uma defensora
apaixonada: ela tem uma visão da FDA trabalhando com cientistas
e companhias para levar medicamentos melhores para o mercado mais
rapidamente, e usar os medicamentos existentes apenas para os pacientes
que vão se beneficiar deles. A visão é alimentada
por novas evidências de que as variadas respostas dos pacientes
aos medicamentos estão inscritas em seus DNAs.
Recentemente, pesquisadores constataram variações
em dois genes que prevêem o quanto o sangue vai "afinar"
diante de uma dose de warfarin (anticoagulante). Os testes para
essas variações e depois o ajuste da dose inicial
a elas poderá ser um grande avanço da medicina - a
prevenção de casos de sangramento provocados pelo
excesso do medicamento, ou de coágulos devido à pouca
quantidade. "Não é que existam medicamentos bons
e ruins", diz Janet. "É que algumas drogas provocam
problemas ruins a um pequeno grupo."
Além disso, a comunidade médica está se acostumando
à idéia da união de diagnósticos e medicamentos,
especialmente quando da introdução de novos tratamentos.
Para um medicamento de combate ao câncer com uma taxa de resposta
de 10% junto à população em geral, "nós
podemos transformá-la em uma resposta de 100% se conseguirmos
descobrir quem de fato vai se beneficiar", diz Janet. "Então,
os outros 90% não precisarão se expor ao medicamento
e todo mundo vai ficar feliz." Isso também deverá
significar menos desastres como o do Vioxx.
Há também esperanças de que a unificação
do desenvolvimento de medicamentos e diagnósticos possa simplificar
a aprovação pela FDA. Ao se focar os testes clínicos
mais nas pessoas com probabilidade de serem beneficiadas, os testes
poderão ser menores, poderão levar menos tempo e assim
também o processo de aprovação. E ao excluírem
as potenciais vítimas dos efeitos colaterais já no
estágio de testes, as companhias terão uma maior chance
de ver seus produtos aprovados pela FDA.
Este é o cenário mais otimista.
O
lado ruim é que as companhias vão descobrir que é
caro identificar biomarcas que prevejam a resposta dos pacientes
e depois desenvolverem os testes de diagnósticos necessários.
Assim que os testes estiverem disponíveis, afirmam os céticos,
os médicos mesmo assim poderão não usá-los
antes de prescreverem suas receitas. E como a FDA não possui
autoridade sobre a prática da medicina, ela não poderá
insistir nesse ponto.
Além disso, na medida em que as companhias forem investigando
o impacto genético de novos medicamentos, poderão
ter surpresas desagradáveis. E se, por exemplo, um medicamento
que parece não provocar nenhum efeito colateral ativar um
gene ligado ao câncer ou à capacidade de regeneração
do fígado? O que faria a FDA? Exigiria anos de testes para
mostrar que o medicamento não provoca câncer, ou para
provar que ele não afeta o fígado?
Desde
seu encontro com os executivos das companhias farmacêuticas
quatro anos atrás, Janet vêm trabalhando para assegurar
às companhias de que elas não serão penalizadas
por realizarem esses chamados estudos farmacogênicos. A agência
decidiu que a divulgação de dados genéticos
é uma decisão voluntária, e não obrigatória.
E isso criou um "porto seguro" para as companhias discutirem
suas descobertas com especialistas da FDA sem desencadear problemas
normativos ou atrasos.
Fonte:
Jornal valor Econômico, 080905, caderno 1, pg A12 |