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REAJUSTE
DE PLANOS DE SAÚDE
José
Augusto Alves de Paula
É
preciso reinventar o modelo de assistência à saúde.
Por vezes me coloco na condição do consumidor, que
ano após ano vive a mesma novela, cujos capítulos
são tão eletrizantes quanto a elucidação
do assassinato de Odete Reutman... a polêmica dos reajustes
dos planos de saúde. São tantos índices: pós-lei,
anteriores à lei, adaptação, migração,
adequação, TAC (Termo de Compromisso de Ajuste de
Conduta).
O consumidor se vê bombardeado por inúmeras informações,
liminar pra cá, suspende o TAC, é inconstitucional
o reajuste, cai liminar. Já há algum tempo a inocência
do consumidor deu lugar à indignação e à
busca de seus direitos. Mas quais direitos? Não seria o contrário?
Acredito não estar longe o dia de vermos as ações
serem impetradas pelas operadoras de saúde, as quais definitivamente
se verão em condições de insolvência
financeira frente os índices autorizados pela Agência
(ANS). Fico me perguntando se o setor suportará o mesmo índice
para todas as empresas, ação esta que coloca na mesma
"panela" seguradoras com mais de um milhão de usuários
e aquelas com menos de cem mil vidas, medicinas de grupo e cooperativas
médicas da mesma forma. Como consumidor, acredito ser o índice
de reajuste autorizado para cada empresa um grande indicativo de
sua saúde financeira – sem nenhum trocadilho.
Afinal, me sentiria mais confortável tendo uma empresa que
precisasse efetivamente de um reajuste de um dígito do que
aquela que, por questão de sobrevivência, fosse autorizada
a praticar vinte por cento, por exemplo. Entendo que a adequação
do cliente aos preços praticados, então, se daria
como uma prática natural de mercado.
Talvez o consumidor, como eu, ainda não tenha se dado conta
de que não existe mais a oferta do produto seguro de saúde
para o mercado de planos ditos individuais/familiares. Exatamente,
você que hoje se encontra empregado gozando do benefício
seguro saúde oferecido por sua corporação,
irá se deparar estarrecido quando de sua aposentadoria ou
demissão, já que o produto similar não se encontra
disponível no mercado para contratação de pessoa
física. Foi extinto! De um modo geral, as carteiras de seguro
saúde individual estão minguando nas seguradoras.
"Não temos mais interesse nesse mercado", ouvi
outro dia em conversa com um alto executivo de uma delas.
Pudera, os reajustes concedidos aos planos de saúde, incluindo-se
a modalidade seguro, são estabelecidos pela Agência
(ANS) e trata-se de um mesmo índice para todo o mercado,
já há anos. Não posso crer que o resultado
operacional de todas as operadoras de saúde seja o mesmo,
tampouco que a relação de despesas versus receitas,
chamada de sinistralidade, nos planos individuais seja a mesma.
Como pode então o reajuste seguir tal critério?
Temo sim por operadoras sufocadas, cujos reajustes não sejam
suficientes, especialmente aquelas cuja carteira se constitua eminentemente
de planos individuais – as quais sobreviverão por mais
um exercício com 11,75% de reajuste. Pergunto-me se a aplicação
do índice apurado de cada uma delas não traduziria
ao mercado maior transparência; afinal, nem todas apresentam
balanço e o consumidor necessita de indicadores para balizar
esta relação de consumo – que particularmente
gosto de chamar de relação de confiança: escolher
a empresa na qual depositarei anos de contribuições
para ser atendido quando a saúde estiver debilitada. É
muito mais do que comprar um bem ou serviço ou verificar
se cláusulas estão sendo cumprido.
É muito mais. Não vejo a novela caminhando para os
capítulos finais, muito menos vejo um mercado se estabilizando,
aliás, o que não falta é choradeira. Todos
reclamam sob sua ótica: operadoras, prestadores, médicos
e clientes, especialmente os clientes. Afinal, isto é democracia.
É ter o direito de falar, questionar, reivindicar, apurar,
reajustar, se negar a pagar, ver que não tem alternativa,
voltar e pagar; mas o que precisamos mesmo é reinventar.
Reinventar um novo modelo de assistência à saúde.
José
Augusto Alves de Paula
Diretor técnico-operacional do Grupo Qualicorp
Fonte: Portal CNS apud Gazeta Mercantil |