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PREJUÍZOS
PROVOCADOS POR ERROS MÉDICOS SE ESTENDEM A TODOS OS SEGMENTOS
DA ÁREA DE SAÚDE
"Direta
e indiretamente, todo e qualquer tipo de erro médico cometido
traz conseqüências negativas para a área de assistência
à saúde. No Brasil esse impacto não é
diferente. Ao contrário do que se pensa, os erros médicos
não são de responsabilidade apenas dos profissionais
de saúde. Todo o ambiente onde ele trabalha também
influencia no bom ou no mau atendimento ao paciente. A partir dessa
afirmação, pode-se concluir que o gerenciamento e
a infra-estrutura de instituições públicas
e privadas de assistência à saúde são
determinantes para se evitar casos de erros médicos".
Erro médico é maior em instituições
públicas de atendimento
A eficiência de um sistema público de saúde
de um país pode ser medida pelo tipo de atendimento prestado
por suas instituições conveniadas. Partindo dessa
premissa, o Brasil ainda caminha a passos curtos no que se refere
a um atendimento qualificado a sua população. O resultado
disso é um número maior de casos de erros médicos
em todos os níveis do atendimento, seja ambulatorial ou hospitalar,
público ou privado.
De acordo com a presidente da Associação das Vítimas
de Erros Médicos (AVERMES), com sede no Rio de Janeiro, Célia
Destri, os erros médicos são conseqüência
do pouco-caso do governo com a saúde da população.
Mas não é só isso, a dirigente da AVERMES afirma
que os casos também são decorrentes da má-formação
dos profissionais de saúde em âmbito universitário,
da chamada "comercialização da medicina",
onde são estabelecidos convênios com empresas que pagam
valores irrisórios aos médicos pelas consultas efetuadas
e pela elitização da medicina no Brasil. "O problema
afeta a todos, das classes pobres, média e alta", disse,
chamando a atenção para o fato de que os erros de
procedimento e diagnóstico médico também são
encontrados em instituições cinco estrelas.
No entanto, a maior parte dos casos de erros médicos ocorre
mesmo é nas instituições públicas de
assistência à saúde, onde se concentram os atendimentos
à camada mais pobre da população. De acordo
com o médico pediatra paulista, Ronaldo Fiore, os mais penalizados
são os pacientes das classes menos favorecidas, que buscam
assistência em instituições deficientes. "Em
algumas dessas instituições não há infra-estrutura
necessária para o atendimento, faltam aparelhos e as condições
de trabalho são inadequadas. Muitas vezes, os profissionais
que ali trabalham não estão habilitados ao serviço.
Nestes estabelecimentos, por um problema cultural, os pacientes
questionam menos a conduta dos médicos", explicou. Segundo
ele, o número de erros médicos no Brasil é
bastante significativo, o que reflete as condições
de saúde pública a que estão sujeitos os pacientes.
Ele informa que os erros mais comuns ocorrem em hospitais, em pacientes
atendidos em pronto-socorro e durante o processo de internação.
"A quantidade maior ocorre nos hospitais públicos, mas
essa não é uma regra absoluta", comentou. "São
vários os fatores que levam a essa realidade e considero
essa situação um espelho do nosso caótico e
cruel sistema de saúde", constatou. Fiore fala de cadeira.
O pediatra da Clínica Portinari, localizada na capital paulista,
tem interesse especial no assunto e trabalha para chamar a atenção
não só da população sobre os seus direitos,
mas também para alertar um maior número de colegas
da medicina sobre a importância de se reivindicar melhores
condições de trabalho junto aos conselhos regionais
de seus estados, cujos direitos estão assegurados nos artigos
22,23 e 24 do Código de Ética Médica.
O engajamento de Fiore se deu a partir do acompanhamento específico
de caso de erro médico, o que o levou a elaborar uma cartilha
sobre o assunto na Internet. "O nível de divulgação
ainda é pequeno no Brasil, apesar da importância do
assunto", reiterou. De acordo com ele, o governo brasileiro
não está cumprindo a sua parte, uma vez que a rede
pública de saúde está cada vez mais sucateada,
desorganizada e com profissionais despreparados. Com isso, instituições
privadas e convênios médicos ruins ganham espaço
neste mercado. Fiore lista uma relação de motivos
que leva o profissional a cometer erros na prestação
do serviço: baixa qualidade do ensino médico, tempo
reduzido para o atendimento do paciente, desumanização
do atendimento, impunidade, mercantilização da medicina
e péssimas condições de trabalho.
Mau atendimento gera custos ao País
O erro médico é visto apenas sob o ponto de vista
da vítima. No entanto, a falha no atendimento a um paciente,
além de influir diretamente sobre o futuro da sua vida particular,
afeta também a conduta do profissional médico ou da
administração da instituição onde o
paciente está internado. Além disso, mexe ainda nos
cofres do governo, na medida em que o erro vai gerar a necessidade
de novos gastos com procedimentos antes não adotados, maior
número de dias de internações e aumento da
distribuição gratuita de medicamentos para reverter
o quadro clínico de um paciente, tendo impacto, portanto,
no bolso de toda a população, que, através
dos impostos que paga, sustenta o sistema.
Mas não é só isso. No caso do paciente recorrer
a justiça e mover um processo contra a instituição,
o governo é quem pagará a conta. Fiore é um
defensor de que a vítima ou seus familiares levem adiante
a reclamação, com o objetivo de chamar a atenção
da opinião pública, bem como dos profissionais que
atuam em todos os níveis do setor de saúde. "A
denúncia e o processo indenizatório pelo dano causado
é uma forma de combater a situação como um
todo", salientou Fiore. O alerta, na sua opinião, poderá
levar à qualificação do nível de atendimento
no Brasil, através de novos investimentos no setor.
O pediatra também vê como positivo o fato de que uma
crescente onda de denúncias retirar do mercado os maus profissionais
e os maus administradores, na medida em que estes ficarão
com medo de sofrer no bolso as conseqüências de possíveis
erros cometidos.
O prejuízo político é outra face deste assunto
tão complexo. Na opinião de Ronaldo Fiore, os representantes
do governo, tanto das esferas federal, estadual ou municipal, têm
responsabilidade direta sobre a qualidade do atendimento prestado
pelas instituições de saúde. Neste sentido,
ele defende que não só médicos e diretores
de hospitais sejam punidos. "Os políticos também
têm que se explicar, pois são, naquele momento, os
responsáveis pelo gerenciamento de determinada instituição",
disse em entrevista ao eHealth. Por enquanto a falta de interesse
em torno do assunto impede a elaboração de estatísticas
sobre o número de erros médicos no País. "Elas
só existem em termos qualitativos, pois não há
um órgão nacional que se responsabilize sobre o assunto",
disse Fiore. Para ele, mesmo que houvesse um órgão
com este objetivo, os números seriam subestimados, já
que em muitos casos as pessoas não ficam sabendo que foram
vítimas de erros médicos ou não denunciam o
caso.
Governo tem condições de melhorar atendimento público
Embora a escassez de recursos para a saúde seja um entrave
a novos investimentos no setor no Brasil, o governo tem condições
de iniciar um programa que vise a qualificação do
atendimento de saúde à população, visando
a redução da incidência de erros médicos.
Neste sentido, Fiore acredita que evitar a abertura de novas faculdades
de medicina no País e a promover a ampliação
sobre as já existentes são duas importantes iniciativas
para impedir a colocação no mercado de médicos
não capacitados.
Um investimento crescente e organizado nas instituições
públicas de saúde também é visto como
uma saída para o caos em que se encontra atualmente o setor
no Brasil. "Tornar as instituições mais transparentes,
através da obrigatoriedade dos médicos de se identificarem
aos pacientes, permitir acompanhamento durante as consultas e internações,
criar uma via de acesso rápido junto à direção
da instituição para receber as reclamações,
distribuir cartilhas ou permitir que ONGs façam esclarecimentos
aos pacientes sobre os seus direitos dentro das unidades de saúde,
seriam grandes passos dados para minimizar o problema no País",
afirmou Fiore.
Prontuário médico e profissionais farmacêuticos
têm importância estratégica
O atendimento adequado prestado a um paciente pode começar
pelo prontuário médico. É importante que ao
ser elaborado, o prontuário seja claro e legível para
que não ocorram erros de interpretação por
parte do paciente ou da equipe que venha a consultá-lo. "Também
pode servir como prova de que o atendimento foi bem realizado",
afirmou Ronaldo Fiore. A ausência deste, no entanto, vem comprometendo
o nível de saúde da população. Prescrições
mal feitas podem gerar a interpretações equivocadas.
Dados do Centro de Assistência Toxicológica (Ceatox),
da Universidade de São Paulo (USP), apontam que, dos 3.211
casos de intoxicação registrados em 1998, 40% foram
provocados por medicamentos. Para os farmacêuticos, os casos
são resultado do alto índice de automedicação
no País. Isso não ocorre somente pela dificuldade
de entendimento da prescrição. Grande parte dos erros
é cometida pela ausência de profissionais da área
farmacêutica no balcão da farmácia, cuja obrigatoriedade
é prevista por lei no Brasil.
Com mais de 32 mil medicamentos disponíveis no mercado, segundo
dados da Organização Mundial de Saúde (OMS)
e do Ministério da Saúde, o brasileiro é um
dos campeões de consumo. Para tratar as mais diversas doenças
não seriam necessários mais do que 420 produtos. Os
dados são reforçados com informações
de que 75% dos antibióticos são prescritos de forma
inadequada e 90% dos consumidores compram antibióticos em
dose menor do que a indicada. Isso faz do Brasil o sexto comprador
de medicamentos do planeta. Enquanto o mercado mundial de medicamentos
movimenta R$ 529 bilhões ao ano, só o Brasil é
responsável por R$ 14,3 bilhões desse total.
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