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FINANCIAMENTO
E DESENVOLVIMENTO DE ENSAIOS CLÍNICOS NO BRASIL
"Com
investimentos das Companhias Farmacêuticas em pesquisa e desenvolvimento
batendo cifras de US$ 60 bilhões por ano, no mundo, o Brasil
começa a despontar em uma promissora praça de pesquisa
e desenvolvimento de novas drogas. Os Ensaios Clínicos são
importante ferramenta neste panorama e podem significar a descoberta
de um medicamento revolucionário, que vai render milhões
a quem o registrar, ou apenas mais uma tentativa em vão,
onde foram consumidos muito tempo e muito dinheiro".
Conceito
A atividade de pesquisa clínica envolve ativamente as grandes
indústrias farmacêuticas, diretamente interessadas
na descoberta, desenvolvimento e fabricação de novos
medicamentos. Não é por acaso que a iniciativa privada
está tão interessada assim em pesquisar novas substâncias
com propriedades medicinais: esta é uma atividade que, quando
resulta em sucesso, pode ser altamente lucrativa.
Os ensaios clínicos, parte deste processo, consistem na investigação
ou série de investigações sobre a administração
de um ou mais produtos medicinais, com o acompanhamento de um médico
especializado. O objetivo é comprovar a eficácia do
produto no benefício de um grande número de pacientes.
A partir dos ensaios clínicos, definem-se também as
dosagens indicadas e os riscos de efeitos colaterais. Para que uma
pesquisa clínica tenha credibilidade, o cuidado com que ela
é planejada, executada e analisada são levados em
conta pelos órgãos fiscalizadores do Governo.
Exigências
Para lançar um novo medicamento no mercado brasileiro são
exigidas diversas etapas de pesquisa e testes pela Anvisa
Agência Nacional de Vigilância Sanitária, órgão
anexo ao Ministério da Saúde.
Somente para entrar com um pedido de autorização para
realizar uma pesquisa clínica, são exigidos pela Anvisa
11 documentos diferentes, entre eles um parecer do Comitê
de Ética em Pesquisa (CEP) da Instituição onde
será realizada a pesquisa, aprovando o Protocolo Clínico
e seu Consentimento Livre e Esclarecido, apreciando
o embasamento científico e a adequação dos
estudos das fases anteriores, inclusive a pré-clínica,
com ênfase na segurança, toxicidade, reações
ou efeitos adversos, eficácia e resultados e informando o
nome do pesquisador responsável.
Além disso, faz-se necessária a comprovação
de que este CEP está devidamente registrado e aprovado na
Comissão Nacional de Ética em Pesquisa, o CONEP, do
Conselho Nacional de Saúde. Acrescentando aos ofícios,
preenchimento de guias e protocolos, pagamento de taxas e outros
comprovantes, também se destaca um ofício de encaminhamento
do Projeto de Pesquisa Clínica oriundo do Pesquisador Principal
ou Patrocinador, quando houver, à Secretaria de Vigilância
Sanitária.
O Patrocinador também fica obrigado a assinar uma declaração
ao Diretor da Área de Pesquisa Nacional ou Internacional,
dando todas as informações a respeito da Pesquisa
que pretende viabilizar financeiramente.
Trata-se realmente de um processo longo, rigoroso e que acaba custando
muito caro para a indústria farmacêutica. Depois de
passar pelos trâmites burocráticos, o desenvolvimento
de um novo fármaco envolve investimentos que podem superar
US$ 120 milhões e um tempo que pode chegar a 10 anos de pesquisa,
envolvendo diversas etapas descritas a seguir. Apesar disso, o crescimento
de pedidos de pesquisas clínicas aprovados nos últimos
cinco anos pela Anvisa é surpreendente: em 1995, foram aprovadas
30 petições e, em 1999, 430. Até julho de 2000
já tinham sido aprovadas 387, o que leva a crer que este
ano superará, com folga, o ano anterior: uma taxa de 80%
de crescimento.
Financiamentos
Estes dados não surpreendem: de acordo com o Dr. Gilberto
Ferreira de Souza, Coordenador do Programa de Pesquisa em Saúde
(COSAU) do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico
e Tecnológico), se uma pesquisa destas emplaca um medicamento
novo de grande aceitação, como é o caso de
vários remédios para a AIDS, o investimento pode ter
um alto retorno. Mas há o risco de tudo dar errado. "Se
der certo, é extremamente lucrativo. Se não, o prejuízo
também é grande", afirma.
O CNPq, órgão governamental de fomento à pesquisa,
tem por principais clientes as universidades que desenvolvem pesquisas,
entre elas ensaios clínicos. Eles possuem para mais de 7
mil linhas de pesquisa, uma verba que gira em torno de R$ 400 a
R$ 600 milhões por ano. O Dr. Gilberto não soube precisar
quanto disso vai realmente para os ensaios clínicos, uma
vez que, a cada ano, esta destinação depende da demanda.
Além do CNPq, outros órgãos financiam também
os ensaios clínicos, entre eles as agências de fomento
estaduais, os CAPs (Centros de Apoio à Pesquisa) e a Finep
(Financiadora de Estudos e Projetos). Em São Paulo, a FAPESP
(Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de
São Paulo) é a principal agência financiadora.
De acordo com o assessor de imprensa da FAPESP, Fernando Cunha,
a exemplo do CNPq, a entidade também não financia
exclusivamente este tipo de atividade: "A Fapesp não
investe necessariamente em ensaios clínicos.
É provável que eles sejam realizados durante o desenvolvimento
de pesquisas financiadas pela Fundação em áreas
relacionadas com a Biologia, Bioquímica, Farmacologia e outras",
esclarece, por e-mail.
Pesquisa e descoberta
De acordo com o relato contido na página web da indústria
Asta Médica, a primeira etapa da pesquisa de um novo medicamento
passa pela pesquisa e descoberta de um novo produto para uma determinada
doença ou para uso genérico. A indústria resolve
investir numa determinada linha de pesquisa e esta descoberta pode
ser feita a partir de três processos básicos: a modificação
química de moléculas conhecidas; a identificação
e isolamento de moléculas a partir de produtos naturais como
plantas medicinais ou microorganismos; ou o desenvolvimento de uma
nova molécula a partir do entendimento de mecanismos biológicos.
A pesquisa em animais antecede a pesquisa em humanos
De acordo com os processos relatados pela Asta Médica em
seu site, "todo novo medicamento é testado em diversas
espécies animais, para a determinação da sua
eficácia, segurança e toxicidade". Estes testes
em animais, que determinam a dose eficaz, dose tóxica, metabolismo,
farmacocinética, efeitos teratogênicos, entre outras
informações, servem de base para a pesquisa nos seres
humanos, que vem a seguir.
Depois de testado com segurança em animais, a nova molécula
é administrada a seres humanos. Em um primeiro momento, recruta-se
voluntários sadios, que recebem o novo fármaco em
unidades especializadas de pesquisa. Antes de aplicá-los
a pacientes da doença pesquisada, são realizados estudos
farmacocinéticos e farmacodinâmicos nos voluntários.
Na investigação humana com novos fármacos passa-se
ainda por várias fases.
Fases da Pesquisa Clínica em Humanos
A primeira fase é a de farmacologia clínica, que envolve
um pequeno número de voluntários (de 12 a 50) e dura
no máximo um ano. O objetivo e detectar a atividade biológica
e as propriedades farmacocinéticas do novo produto. Nesta
etapa, avalia-se se existem semelhanças ou diferenças
entre os achados nos animais e no ser humano. Tudo isso precisa
ser realizado dentro de rigorosos padrões éticos,
com a participação de unidades acadêmicas específicas,
pessoal experiente, capacitado, e modernos e sofisticados laboratórios.
Na fase seguinte, chamada de Investigação Clínica,
determina-se a utilidade do novo produto e seu potencial terapêutico,
onde alguns poucos investigadores, no máximo dez, aplicam
a droga em um número ainda reduzido de pacientes, que varia
de 5 a 300. Para entrar nesta fase, os protocolos de pesquisa já
precisam estar aprovados pelo Comitê de Ética Hospitalar
e devem ser efetuados dentro da legislação vigente
de cada país, no caso do Brasil, a Anvisa. Para executar
estes estudos são necessários farmacologistas, clínicos
e médicos especialistas em unidades específicas de
pesquisa clínica, em ambiente hospitalar, com material e
pessoal qualificado.
Nesta etapa também se determina qual a posologia adequada.
O fármaco pesquisado é comparado com um placebo ou
um produto eficaz já conhecido (controle positivo). O estudo
prossegue com o objetivo de definir o perfil terapêutico e
o esquema de administração do medicamento a ser utilizado
no estágio seguinte.
Na fase seguinte, a de Ensaios Clínico-Terapêuticos,
a intenção é efetuar um estudo clínico
mais amplo onde se pretende determinar a eficácia clínica
comparada e a segurança do novo produto. Nesta etapa, envolve-se
um grande número de pacientes (500 a 1000), geralmente em
estudos multicêntricos (envolvendo mais de um centro de pesquisa),
comprometendo farmacologistas clínicos e médicos especializados,
através dos ensaios clínicos. É nesta fase
que possíveis efeitos adversos, como toxicidade ou fenômenos
alérgicos, podem ser detectados através de um processo
conhecido como farmacovigilância.
No Brasil, explica a Asta Médica, em estudos desta fase,
efetuam-se pesquisas de drogas ainda não registradas. Para
isso, a Instituição que realizará o estudo
deve ser credenciada pelo Ministério da Saúde. Segundo
a Asta Médica, empresa multinacional e que na sua matriz
está submetida à regulamentação também
do FDA (Food and Drug Administration, dos Estados Unidos), este
tipo de estudo é muito interessante, uma vez que os coloca
em contato com novas drogas no Brasil e lhes permite ficar conhecendo
seus mecanismos de ação, eficácia e farmacocinética,
antes de sua comercialização e divulgação
no mercado.
Na penúltima fase, entra a divulgação e promoção
do produto já testado. A Asta Médica explica que,
nesta etapa, o novo fármaco será utilizado em hospitais
e clínicas como um novo produto, registrado em órgãos
governamentais, numa estratégia de promoção
do produto. Muitos estudos comparativos com similares já
existentes são realizados, objetivando mostrar as possíveis
vantagens sobre os concorrentes. É aí que a aceitação
da classe médica passa a ser fundamental. Além disso,
é preciso provar as vantagens econômicas do novo produto,
com base em um grande número de pacientes: de 2mil a 10mil.
Para concluir, ainda há a fase da farmacovigilância,
onde se verifica a possibilidade de efeitos adversos do novo produto,
através do acompanhamento dos pacientes em uso crônico
da droga.
Como se pode perceber, os Ensaios Clínicos envolvem um grande
número de participantes: a Indústria Farmacêutica,
Universidades, Centros de Pesquisa, Laboratórios de Análises
Clínicas, médicos e voluntários, entre outros.
As entidades envolvidas na pesquisa passam ainda por auditorias
dos órgãos responsáveis pela autorização
de uso do produto, que checam seus processos de produção
e qualidade. Na verdade, de acordo com informações
do Dr. Herbene Antônio de Tolosa, Gerente Médico da
Divisão de Pesquisa Clínica do Laboratório
Fleury, que participa de Ensaios Clínicos há aproximadamente
dez anos, existem apenas cerca de 35 empresas capacitadas que realizam
ensaios clínicos com constância no Brasil.
Para adaptar-se às exigências governamentais, o Dr.
Herbene, em entrevista ao eHealth, explica que o Laboratório
Fleury, no princípio, realizava análises clínicas
para os estudos, mas que atualmente evoluiu para uma Divisão
que auxilia a Indústria Farmacêutica em todas as etapas
dos Estudos Clínicos com finalidades regulatórias
(Pesquisas cujos dados altamente confiáveis servem para análise
de novos medicamentos pelas autoridades sanitárias e sua
posterior liberação para consumo).
O Brasil passa a ser roteiro de estudos clínicos
O Brasil vem avançando na participação de estudos
clínicos, o que significa que seus médicos vêm
elevando seus padrões de pesquisa e de análise de
dados, ao passo que se interam do uso de novas possibilidades terapêuticas
no mesmo compasso dos países desenvolvidos. O reconhecimento
de que no Brasil há centros qualificados para a pesquisa
clínica de alto nível e possibilidades laboratoriais
com sofisticação técnica também começa
a ocorrer.
Ainda há pouco tempo atrás, o Brasil não participava
de projetos de protocolo de medicamentos dos laboratórios
farmacêuticos estrangeiros, principalmente para novos produtos
para doenças como AIDS, Hipertensão e Pneumonia. Devido
ao rigor que o processo exige, muitos países continuam sem
nunca ter sido procurados para fazer parte das pesquisas que, de
qualquer modo, continuam sendo realizadas, em 90% dos casos, pelos
EUA e pela Europa.
Laboratório nacional investe pesado
A Biosintética, importante laboratório 100% brasileiro,
é um dos exemplos de empresa nacional que investe pesado
em ensaios clínicos como modo de manter-se no mercado. Aliada
a importantes universidades brasileiras, como a Universidade Estadual
de São Paulo, Universidade Estadual de Campinas, Universidade
Federal de São Paulo, Universidade Federal do Rio de Janeiro,
Universidade Federal do Ceará, entre outras, a empresa começa
a apresentar o registro de vários medicamentos protegidos
por patente.
A empresa relata em seu site que seu investimento em pesquisas vem
crescendo: passou de 0,37% da receita operacional líquida
em 1994 para 1,92% em 2000. Eles pretendem, assim, criar novos nichos
de mercado para produtos com ação terapêutica
comprovada. Estes estudos clínicos deverão servir
de base para que a Biosintética possa evoluir, finalmente,
para uma etapa considerada como superior no desenvolvimento tecnológico:
a realização de testes clínicos para moléculas
novas.
A experiência da Biosintética dita que este tipo de
investimento é condição essencial para manter
a competitividade nas novas condições mercadológicas
provocadas pelas mudanças estruturais ocorridas no Brasil
nesta década. Dentro disso está a estratégia
de uma futura linha de produtos genéricos.
Pesquisas em andamento na Biosintética
A Biosintética está, no momento, desenvolvendo uma
série de pesquisas, de acordo com informações
publicadas em seu site na Internet. Entre elas, para exemplificar,
destaca-se a de um extrato obtido da raiz da Heteropteris Aphrodisiaca,
um produto fitoterápico obtido a partir de uma planta do
serrado de Mato Grosso. Até o momento o produto demonstrou
nos ensaios farmacológicos possuir atividade sobre a função
motora e sobre a memória de ratos idosos, além de
atividades antioxidante-redutoras e radicais livres. A crença
popular da região do serrado mato-grossense de que o uso
desta raiz, na forma de garrafada, estimularia a atividade sexual
e produziria bem estar físico e psicológico, despertou
o interesse dos cientistas. O estágio atual da pesquisa é
o do início dos estudos de toxicologia em voluntários
sadios. Já foi requisita a patente sobre o futuro medicamento.
Também existem pesquisas em andamento para um novo redutor
de colesterol, obtido de plantas, não absorvível e
resultado da combinação de duas substâncias
já conhecidas. Este produto já tem sua patente solicitada
pela Biosintética. Foram iniciados ensaios clínicos
em 1999. Outra pesquisa envolve um novo medicamento que associaria
o Enalapril e a amlodipina para o tratamento da hipertensão
arterial. A patente também já foi solicitada. Desenvolve-se
ainda, ensaio clínico para verificar uma nova indicação
para a Nimodipina: o tratamento da Psicose maníaco-depressiva
como alternativa ou complemento ao uso do Lítio. O estudo
piloto será realizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro.
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