04/02/2006 PESQUISAS PARA TODOS OS GOSTOS A disseminação de novos recursos médicos e de informações sobre os avanços científicos na área da saúde tem como efeito colateral “epidemias” de erros de interpretação e sensacionalismo Riad Younes - As maravilhas do século XXI estão ao nosso redor. Tecnologia e avanços científicos. Medicina de ponta. Novidades visíveis em todos os lugares: telas, páginas, rádio, televisão... As ciências da saúde não estão fora desse turbilhão. Milhares de pesquisas são publicadas todos os meses em revistas científicas ao redor do mundo. Milhares de informações para ser lidas, digeridas e eventualmente aplicadas na prática do dia-a-dia. A produção científica na área médica é imensa. Mais de 100 mil estudos e resultados de pesquisas são publicados anualmente. No Brasil temos outra fonte de informações: as teses de mestrado e doutorado defendidas em concursos acadêmicos. Também seus resultados fazem parte do pacote chamado “ciência médica”. Pesquisas precisam ser divulgadas e a mídia tem esse papel. Há poucos dias, por exemplo, jornalistas entrevistaram uma pesquisadora que acabara de defender tese de doutorado avaliando dietas e seu impacto sobre o câncer. Infelizmente, nem toda tese defendida com sucesso no Brasil tem a sua qualidade científica garantida. Estudo recentemente realizado na Faculdade de Medicina da USP mostrou que uma minoria de teses, mesmo entre as divulgadas na mídia leiga ou semileiga, é, na realidade, publicada em revistas científicas consideradas sérias. Da mesma forma que nem tudo que é publicado em revista médica tem alguma utilidade e até validade científica. Estudos e mais estudos repetem os resultados assustadores. Levantamentos apontam que, de todas as publicações dos artigos científicos disponíveis em revistas médicas consideradas referências para a comunidade médica, entre 20% e 80% são válidas do ponto de vista metodológico e científico. Imagine só o desespero dos médicos com escassa formação de metodologia científica (a maioria dos médicos encontra-se nessa categoria), e mais ainda do público leigo quando tem de decidir, lendo este ou aquele artigo, se vai aplicar ou não a informação divulgada. A população em geral começou a se interessar cada vez mais por assuntos do corpo, da saúde e do bem-estar. Basta olhar o número de revistas de grande circulação no Brasil, assim como no exterior, e comparar a porcentagem de capas dedicadas a assuntos de saúde na década de 80, de 90, e agora neste início dos anos 2000. Percebemos uma proliferação drástica no número de capas relacionadas à saúde. Para ter uma idéia, em 2004, as revistas de grande circulação no Brasil triplicaram, e algumas quadruplicaram, o número de capas dedicadas a matérias de corpo e de saúde, comparando com a década de 90. Por que esse interesse? Por que tanta gente quer ler, consumir essas informações? Por que agora? As respostas possíveis são várias. Primeiro, porque as pessoas vivem mais. A expectativa de vida aumentou, principalmente entre membros das camadas economicamente mais bem situadas. Antigamente, a maioria das mortes era precoce e devida a problemas agudos (infecções, por exemplo, como tuberculose ou sarampo). Hoje, esses males foram substituídos por doenças crônicas (cardiovasculares, hipertensão, câncer etc.). O paciente e seus familiares convivem com essas doenças, com os seus sintomas, por muitos anos. Isso vem levando os pacientes a se interessar cada vez mais pela doença, pelo seu acompanhamento diário. Querem sempre saber mais sobre a doença e os avanços que podem aumentar suas chances de combater ou reverter o problema de saúde. Além disso, o acesso à medicina também aumentou para essa camada da população. Por outro lado, a nova febre que varre o mundo também atinge a saúde: a sede por informações. Todo mundo quer saber tudo sobre tudo, o tempo todo. Empurrado por essas ondas, progressivamente, o jornalismo científico expandiu-se na mídia leiga e a saúde, como assunto midiático, ganhou maior visibilidade. Essa enxurrada de informações não veio sem trazer novos problemas em sua esteira. Dilemas para os médicos, sobre como escolher os estudos científicos que merecem ser lidos e como separar o joio do trigo, agora se expandiram para o público leigo. Como separar informações oferecidas pela mídia e saber o que é aplicável já, em que tipo de situação, e o que ainda não passa de simples sugestão a ser mais bem testada e confirmada? Os leitores ficam confusos com as manchetes e as informações publicadas pelas revistas leigas. Um dia saem manchetes sobre as vantagens das vitaminas. Na semana seguinte, em outra manchete, as mesmas vitaminas caem em desgraça total. Deve-se, afinal, tomar ou não essas vitaminas? Acreditamos ou não nas notícias? Onde está a verdade? Para piorar a situação, surgiu recentemente uma nova fonte de informações. As instituições de saúde, acadêmicas e não acadêmicas, criaram veículos de informação para o público. Hospitais e centros médicos criaram departamentos inteiros de marqueteiros, além de relações públicas apenas para alimentar a mídia com informações. Muitas, infelizmente, não correspondem a nenhuma verdade, ou não podem ser rigorosamente confirmadas. São simples sugestões, opiniões dos donos dessas instituições, que não se baseiam em nenhum fato verídico. Os jornalistas da saúde, e incluo-me entre eles, recebem diariamente dicas e informações sobre equipamentos e técnicas novas deste ou daquele hospital. Descobertas “maravilhosas”. Para que tudo isso? Para criar uma boa imagem sobre os avanços na ciência. Da qualidade desta ou daquela instituição. Por outro lado, os verdadeiros cientistas, que antigamente ficavam reclusos em seus laboratórios, atualmente querem, e até precisam, divulgar os resultados de suas pesquisas na mídia leiga. Muitos vivem a insinuar ou a dizer diretamente: “Olhem que o meu estudo foi publicado na melhor revista científica do mundo e vocês têm de acreditar que isso é uma garantia da minha qualidade como pesquisador. Garantam, portanto, mais financiamento para as minhas pesquisas subseqüentes, melhorem o meu salário e o dos meus técnicos. Convidem-me para palestras, mandem-me para congressos – de preferência em lugares turísticos…” Muitos médicos e pesquisadores, por outro lado, não se sentem confortáveis em falar com jornalistas. São tímidos ou têm receio de equívocos de interpretação ou de problemas éticos na divulgação de seus resultados. Até que se prove o contrário, nenhuma faculdade de medicina treina formalmente seus alunos para transmitirem de forma clara informações importantes para o público leigo. Por falta do hábito, transmitem informações de uma forma incompreensível ou até errada para quem não está afeito ao assunto em questão. Também as indústrias pesquisam, desenvolvem novas substâncias, novas tecnologias, gastam tempo e dinheiro. E querem, com todo o direito, promover seus produtos (equipamentos, drogas) ou com novas indicações na área de saúde. Para isso, estabeleceu-se ao redor do mundo uma corrente contínua de trabalhos científicos publicados com patrocínio e financiamento das empresas que produzem novidades tecnológicas. Automaticamente, desenvolveu-se um fluxo frenético de press releases, os textos das assessorias de imprensa que apresentam – e propagandeiam – novidades. Para ter uma idéia, no meu endereço eletrônico chegam, todos os dias, de duas a cinco mensagens, diretamente ou através da redação de CartaCapital, informando sobre novos remédios, novas técnicas ou cirurgiões com qualidades excepcionais para ser divulgados na minha coluna na revista. Consistentemente, esses press releases chegam enviados por agências de marketing, chamando a atenção para um “novo” produto. Na maioria das vezes, essas novidades atendem por nomes comerciais e não genéricos, com a referência à indústria responsável por sua fabricação e a indicação clara de médicos para ser entrevistados. De rotina, eu – a exemplo dos meus colegas divulgadores da medicina – investigo o que esses médicos fazem e se os dados divulgados foram cientificamente comprovados ou não passam de mera propaganda comercial. Se as técnicas ditas novas são mesmo novas ou se, simplesmente, trata-se de uma embalagem diferente de velhos conhecidos. Mas, após essa seleção inicial do material que pode merecer divulgação, vem o dilema do jornalista de saúde. Como escolher a notícia a ser divulgada ou a pesquisa que acaba de ser publicada? O que transmitir para o público e até como relatar? Um estudo recém-publicado avaliou a atuação da mídia de saúde. E as notas não foram boas. A pesquisa mostrou que os jornalistas tendem a exagerar os benefícios terapêuticos, diminuem ou ignoram os potenciais efeitos colaterais e quase nunca informam seus leitores sobre ligações importantes entre as indústrias e os especialistas envolvidos nas pesquisas. Falhas graves que demandam, por parte de cientistas, médicos e jornalistas, ações claras e eficazes de correção. A preocupação com o jornalismo de saúde não é nova. Há freqüentes evidências de artigos que transmitem aos leitores falsas esperanças ou alarmes exagerados. Por outro lado, a recente comercialização intensiva da pesquisa médica e o “patrocínio” de pesquisadores pelas indústrias, envolvendo até pagamentos na forma de cotas ou ações das próprias empresas, criaram um conflito de interesse por parte dos cientistas. A academia médica está, obviamente, preocupada com esses fatos. Marcia Angell, editora da mais prestigiosa revista de medicina, a New England Journal of Medicine, alertou em claras palavras contra o perigo das “relações cada vez mais íntimas entre os cientistas médicos e as indústrias. A mídia leiga, por sua vez, deve ficar atenta a essas ligações”. A mídia não está conseguindo lidar com todas essas dificuldades por vários motivos. O primeiro problema situa-se exatamente em quem está escrevendo sobre saúde hoje em dia. A maioria dos profissionais que exercem essa função tem apenas formação jornalística. Eles têm todo o direito de escrever a respeito de saúde ou qualquer outro tema. Mas cabe questionar quem são esses jornalistas que escrevem sobre as ciências da saúde e como chegaram a esse posto especializado dentro da revista ou do jornal. Pesquisas realizadas ao redor do mundo, e no Brasil não deve ser muito diferente, mostram que, salvo em raros casos, esses jornalistas de saúde não chegaram a ter qualquer formação básica, acadêmica, nas áreas específicas da saúde ou das ciências correlatas. “E daí?”, diria alguém. “Jornalista que cobre notícias do Parlamento não precisa ter, necessariamente, formação em ciências políticas.” Pode ser, mas no que tange à área da saúde, a coisa é um pouco mais complexa e arriscada. Existem desvantagens pela falta de contato formal com a ciência. Falta de domínio do jargão científico e, mais importante, há uma deficiência da capacidade de análise crítica, objetiva, que um bom observador externo necessita para analisar a real validade de um artigo científico. Por outro lado, entretanto, há vantagens na formação não especializada. O bom jornalista que nunca foi cientista freqüentemente transmite informações para o leigo com maior eficiência e clareza. O cientista tem a tendência de escrever em “cientifiquês” ou em “mediquês”. Mas, apesar dessas vantagens do profissional leigo em ciência e medicina, a avaliação de alguém mais especializado muitas vezes faz falta. A maioria das revistas, dos jornais, dos canais de tevê e outros veículos de comunicação não possui um editor, responsável pelas colunas e reportagens sobre saúde, que tenha algum treinamento ou especialização nas áreas correlatas à saúde, como biologia, bioquímica, farmacologia, medicina etc. Daí surge outro problema. A decisão sobre a escolha de um tema, ou a divulgação de uma informação, além da forma de seu relato para o público, depende quase que exclusivamente do jornalista generalista. Dificilmente o que esses profissionais escrevem será contestado ou modificado pelos editores, a menos que atrapalhe a vendagem da revista ou a audiência do programa de tevê. Jornalista de saúde deveria ter noções claras de estatística. Muitos estudos publicados apresentam falhas, cometidas de forma consciente ou acidental pelos pesquisadores responsáveis. O jornalista tem de evitar ser um cúmplice da desinformação. Os profissionais de relações públicas que trabalham para indústrias, instituições ou para médicos podem plantar armadilhas para os jornalistas. Algumas notícias de “soluções fantásticas” e “resultados milagrosos” não passam de afirmações copiadas diretamente de press releases. Nem tudo que parece, ou que faz algum sentido, é confiável e verdadeiro. Não podemos esquecer jamais que a ciência é baseada na probabilidade, na incerteza e mais ainda na evolução de conceitos, teorias e métodos. Os pesquisadores em geral são mais compreensivos, mais pacientes, em relação ao ritmo, muitas vezes lento, de progressão da ciência do que os leigos. Os cientistas de verdade continuamente se autocorrigem. Aceitam sugestões e críticas de seus pares. Não devem nunca se sentir absolutos em suas conclusões. O público, por outro lado, focaliza a sua atenção nos resultados finais. Tanto o leitor quanto o jornalista muitas vezes esquecem as observações e ressalvas feitas pelos próprios pesquisadores. Acreditam no que querem e não necessariamente no que o próprio autor do artigo científico escreveu. O ego do profissional também tem um papel nessa situação. Muitos jornalistas de ciência e de saúde consideram-se membros de uma elite. Alguns são mesmo. Mas muitos tendem a publicar apenas resultados positivos. Estudos com resultados negativos ou não muito glamourosos são deixados de lado, sistematicamente. J ornalistas muitas vezes ignoram partes importantes dos estudos publicados, como, por exemplo, a população-alvo ou a população estudada. Esquecem que os resultados divulgados num artigo específico somente podem ser aplicados se as mesmas condições foram exatamente observadas. Se um remédio funcionou muito bem quando foi testado num país ou região, isso não significa, necessariamente, que funcionará em pacientes de outros lugares. O importante exemplo disso aconteceu recentemente, quando um medicamento contra câncer de pulmão demonstrou ser bastante eficaz em orientais (japoneses e coreanos) e muito pouco eficiente nos ocidentais. Mesmo especialistas no assunto ficaram perplexos. Naquele caso, a disseminação intensiva e a generalização dos resultados obtidos no Oriente mostraram-se um grande erro. Acabou levando muitos pacientes a exigir e a receber medicamentos desnecessários, caros e com pouca eficiência, durante muito tempo. Foram necessários vários anos e muitos estudos para comprovar a falta de efeito desse medicamento na população ocidental em geral. Esse mesmo medicamento foi divulgado na maior parte das revistas leigas do Brasil como um novo milagre contra o câncer de pulmão dois ou três anos atrás. Mas, infelizmente, depois de comprovada a falta de eficiência do medicamento, pouco ou nada foi publicado a respeito pelas mesmas revistas. Resultados negativos não vendem. Frases como “estudo preliminar”, “resultados parciais”, “amostra pequena, provavelmente não representativa de toda a população”, “estudos em ratos”, “mais estudos serão necessários para confirmar esses resultados”, escritas por autores de artigos e estudos, não são mencionadas pela maioria dos jornalistas. O sensacionalismo é um problema comum. Os bons jornalistas devem identificar e resistir a essa tentação. A linguagem empregada tem de ser adequada para atingir o máximo de pessoas. Principalmente os leigos com pouca formação educacional e, portanto, em média, com menor capacidade de discernimento. Esses são alvos fáceis para a desinformação. É uma missão e obrigação dos bons jornalistas divulgar, se possível, dados muito bem lapidados para transmitir informações úteis e claras a todos os leitores, em todas as camadas sociais. Os médicos, por outro lado, freqüentemente ficam frustrados diante das conseqüências de relatos irresponsáveis, tendenciosos, imprecisos e sensacionalistas. Na ótica dos médicos, os jornalistas parecem ser menos interessados na informação correta, e muito mais em vender jornais e revistas e em atrair mais telespectadores. Aqui vai uma pequena sugestão para jornalistas de saúde. Na próxima vez, antes de produzir uma matéria, leia com cuidado e senso crítico, o estudo e os resultados divulgados. A vida de muita gente pode depender de um pequeno deslize na informação. Exemplos não faltam na mídia nacional e internacional. Para os leigos leitores das colunas de saúde, as dicas são poucas. Verifique se o jornalista descreveu o estudo de forma clara, identificou a população estudada e mostrou os resultados em números absolutos e em porcentagens. Somente dados relativos podem dar falsas idéias. Uma triste notícia que correu o mundo e causou desespero pouco justificado foi relacionada à reposição hormonal em mulheres na menopausa. Um estudo muito bem-feito mostrou que a administração dos hormônios aumentou as chances de câncer de mama em 50%. Mulheres desesperadas correram a seus médicos. Horas e horas foram gastas para explicar o que os números na verdade diziam. A pesquisa mostrava que o risco, que era de um caso de câncer de mama para cada mil mulheres sem reposição hormonal, subia para 1,5 para cada mil entre as que faziam reposição. Um aumento de 50% do risco parece trágico, mas o número absoluto é apenas 1,5/1.000. Mas o sensacionalismo ganhou. As revistas e os jornais venderam. Colunas e mais colunas foram escritas e devoradas pelos leitores. A verdade e os fatos tiveram de esperar. Fonte: Carta Capital |