ARTIGO CIENTÍFICO

01/05/2005

A REVOLUÇÃO DA GENÉTICA NO SETOR FARMACÊUTICO

"A farmacogenética institui-se no mundo moderno como uma promissora área do desenvolvimento da indústria farmacêutica, podendo trazer numerosas vantagens para a produção de medicamentos com menores reações colaterais e interações medicamentosas prejudiciais. Ao mesmo tempo, os estudos desta nova ciência suscitam as mais variadas cobiças e a Amazônia, tesouro de material genético, já está no alvo de organizações internacionais. Confira aqui estas disputas e também o potencial desta revolução biotecnológica que está se avizinhando neste terceiro milênio".

Amazônia: Potencial Genético na Mira das Indústrias Farmacêuticas

O mapeamento genético, em nome do desenvolvimento da ciência, estimula a ambição da indústria farmacêutica, que vê nos novos descobrimentos da genética, possibilidades de ampliar seus ganhos e cifras.

O método de decodificação e seqüenciamento dos genes, desenvolvido pelo Projeto Genoma Humano, dá início a uma autêntica revolução biotecnológica para o século 21. Com o novo conceito, o Brasil expõe-se como o maior detentor de riquezas naturais do mundo, já que possui a mais rica reserva de fauna e flora distribuídas pela Mata Atlântica e principalmente pela Floresta Amazônica.

A corrida pelo ouro já começou, e o contrato entre a BioAmazônia (Associação Brasileira para Uso Sustentável da Biodiversidade da Amazônia) e o laboratório suíço Novartis Pharma AG, assinado no último dia 29 de abril, mostra, conforme denúncia de alguns membros do Conselho de Administração e do Conselho Técnico-Científico da BioAmazônia, que o patrimônio genético tanto pode significar uma importante alternativa de desenvolvimento econômico e científico para o Brasil, como pode resultar em mais uma oportunidade de negócio rentável entregue por valores subavaliados a grupos estrangeiros.

Pelo acordo, o Brasil enviaria material genético vivo (germoplasma) em larga escala em troca de R$ 6,4 milhões, a serem repassados pela Norvatis durante o período de três anos.

Denúncia Partiu de Conselheiros da BioAmazônia

O acordo foi denunciado por alguns membros do Conselho de Administração e do Conselho Técnico-Científico da BioAmazônia, alguns dias antes de ser assinado. Segundo esses conselheiros, há mais de um ano o presidente da BioAmazônia vinha negociando com a Novartis. Após o escândalo na comunidade científica, o Ministério do Meio Ambiente brecou a parceria entre a Associação e a indústria suíça. Segundo o ministro José Sarney Filho, o Contrato de Gestão firmado pelo Poder Público com a BioAmazônia para implementar o Programa Brasileiro de Ecologia Molecular para Uso Sustentável da Biodiversidade da Amazônia (Probem/Amazônia), não autoriza a entidade a realizar acordos, convênios ou contratos de bioprospecção com bio indústrias.

O Ministério do Meio Ambiente afirma que o Contrato de Gestão limita a interferência da BioAmazônia com as bioindústrias no sentido de articulação de oportunidades de formação de parcerias e participação em negociações juntamente com os segmentos públicos e privados envolvidos na implantação de um vasto projeto de desenvolvimento do potencial bioindustrial da Floresta.

Os termos impostos pela Norvatis foram desaprovados pela comunidade científica, parlamentares e pesquisadores, que ficaram sabendo do conteúdo do contrato após a divulgação de um documento encaminhado pelo professor da Universidade do Amazonas, Spartaco Astolfi Filho, representante dos associados no Conselho de Administração e coordenador do Conselho Técnico-Científico da BioAmazônia.

O cientista acredita ser perigosa a permissão ao amplo acesso à biodiversidade da região, sem que exista uma legislação específica em vigor. Ele criticou as cláusulas e condições impostas pela Norvatis, em que torna a BioAmazônia apenas uma assistente de transferência física de material genético brasileiro para o aproveitamento comercial exclusivo de seus parceiros. Outra crítica feita por Astolfi Filho ao contrato deve-se ao fato de que não há transferência de tecnologia, nem investimento de recursos suficientes para desenvolver no Brasil uma base laboratorial, como está previsto no Probem.

Um novo acordo entre a BioAmazônia e a suíça Norvatis está para ser anunciado ainda este ano.

Farmacogenética

A reação do indivíduo na resposta às drogas é um problema clínico substancial. Tal variação se dá desde uma falha na resposta a um remédio até reações adversas à medicamentos e interações droga-droga, quando várias delas são administradas concomitantemente. As conseqüências clínicas variam desde um desconforto do paciente até uma fatalidade ocasional. Um estudo realizado na Inglaterra sugeriu que aproximadamente uma a cada 15 internações hospitalares é devida a reações adversas à droga, e uma pesquisa americana recente estimou que 106.000 pacientes morrem e 2,2 milhões são prejudicados a cada ano por reações adversas a medicamentos prescritos.

Com as recentes descobertas, fica evidente que grande parte da individualidade na resposta à droga é hereditária: esta variabilidade é determinada geneticamente e define a área de pesquisa conhecida como farmacogenética.

Com o seqüenciamento do código genético humano, a pesquisa em farmacogenética ganha enorme impulso. Graças ao surgimento de novas tecnologias que permitem o rápido rastreamento para polimorfismos específicos, assim como o conhecimento, recentemente conquistado, das seqüências genéticas de genes alvo, tais como aqueles que codificam para enzimas, canais de íon e outros tipos de receptores na resposta à medicamentos.

De acordo com artigo publicado pelos cientistas Roland Wolf, Gillian Smith e Robert Smith, todos de centros de pesquisa localizados na Inglaterra, o trabalho em farmacogenética está se desenvolvendo atualmente em duas direções principais: primeiramente, identificando genes específicos e produtos gênicos associados a várias doenças que podem atuar como alvos para novos medicamentos e, em segundo lugar, identificando genes e alelos variantes de genes que alteram nossa resposta aos medicamentos atuais.

Benefícios da Farmacogenética

Os estudiosos prevêem que com o desenvolvimento das pesquisas no campo do polimorfismo dos genes, será possível eliminar as reações adversas no tratamento de pacientes, reduzindo o quadro de intoxicações e de ineficiência das drogas. Será possível a recomendação da prescrição médica relacionando a dose ao genótipo, o que evidenciará a possibilidade de interações medicamentosas quando múltiplos medicamentos forem prescritos concomitantemente.

Benefícios econômicos também vão resultar da evolução da farmacogenética. O teste de identificação de genes reduzirá substancialmente a necessidade de hospitalização e seus custos associados, devido às reações adversas aos medicamentos. A indústria farmacêutica também poderá desenvolver novas drogas para pacientes com genótipos específicos - a chamada "estratificação medicamentosa".

Desvendando Polimorfismos de Nucleotídeos

Com o avanço de novas pesquisas e o aumento do conhecimento na área genética, principalmente através do projeto Genoma Humano, possibilita-se a busca pela identificação de polimorfismos de nucleotídeos únicos - diferenças entre pessoas de um único par de bases em seu DNA. Estes polimorfismos podem ser usados para identificar genes específicos associados a várias doenças tais como o câncer, o diabete e a artrite. Há esperança que muitas das proteínas codificadas por esses genes tornem-se produtos para novos medicamentos. Por estes genes terem sido identificados por análise de polimorfismo, as drogas direcionadas para tais alvos podem ter diferentes efeitos em pacientes diversos e algumas drogas serão mais eficazes em pacientes com variantes gênicas específicas. Isso leva ao conceito de estratificação da droga ou ao tratamento medicamentoso individualizado, no qual a escolha da droga é influenciada pelo "status" genético do doente.

O maior desafio dos próximos anos será determinar a função de cada gene polimórfico ou do produto gênico e suas formas diversas. É obrigatório determinar se um produto gênico tem importância farmacológica ou toxicológica e se as variantes alélicos individuais têm importância terapêutica. De acordo com os pesquisadores ingleses, estes são os maiores obstáculos e se passarão muitos anos até que este aspecto da farmacogenética seja praticável no desenvolvimento das drogas, o que trará grande rentabilidade financeira para as indústrias farmacêuticas.

Testes de Farmacogenética

Até pouco tempo a única forma de identificar um paciente com um fator de risco genético para uma reação colateral a um medicamento era através de "testes de fenotipagem", com a administração de um marcador específico da droga ou de uma substância de teste. Esses procedimentos eram cansativos e envolviam a administração invasiva da substância de teste, a coleta de amostras e subseqüente análise bioquímica. Os testes modernos baseados no DNA que requerem apenas uma pequena amostra de tecido - sangue de uma ponta de dedo, células provenientes de um lavado oral ou células de folículo piloso - possibilitam a rápida e inequívoca determinação do "perfil farmacogenético" ou genótipo de um paciente.

A aplicabilidade clínica do teste farmacogenético depende da importância relativa de cada polimorfismo na determinação do resultado terapêutico. Os médicos precisam saber se a droga que eles estão prescrevendo está sujeita à variabilidade farmacogenética e como usar esse conhecimento. Além disso, é preciso haver disponível um serviço de teste confiável, baseado no DNA. Para alguns polimorfismos farmacogenéticos, acredita-se que atualmente há conhecimento suficiente sobre as implicações das variações geneticamente determinadas para proporcionar bases populacionais para testes farmacogenéticos.

Os detalhes de mais de 20 drogas que são conhecidas como substratos de CYP2D6 estão disponíveis tanto no ABPI Compendium of Data Sheets, na Grã-Bretanha, quanto no Physicians Desk Reference, nos Estados Unidos. Isso pode permitir a escolha e doses de medicamentos específicos, particularmente aqueles para tratamento de doenças psiquiátricas, para uso mais apropriado. No momento, as reações colaterais às drogas ocorrem numa proporção substancial de pacientes: um estudo americano recente mostrou que, em pacientes com prescrição de medicamentos psiquiátricos que são substratos de CYP2D6, as reações adversas ao medicamento foram observadas em todos os pacientes com mutações hereditárias que inativam o gene do CYP2D6.

O Futuro da Farmacogenética

O teste farmacogenético pode proporcionar o primeiro exemplo de um mecanismo em que o exame baseado em DNA pode ser aplicado a populações, mas ainda temos um longo caminho a percorrer até obtermos um "chip" farmacogenético de DNA que os clínicos gerais possam usar para identificar todas as drogas às quais um paciente em particular é sensível. No entanto, há evidências crescentes de que a farmacogenética será extremamente importante no serviço de saúde. Um dia poderá ser considerado não ético não realizar tais testes rotineiramente para evitar a exposição dos indivíduos a doses de medicamentos que podem lhes ser prejudiciais. A capacidade de identificar indivíduos sensíveis, tanto antes da administração de uma droga como após uma reação adversa, também pode ter importância econômica, já que iria evitar o empirismo associado a unir o medicamento mais adequado à dose ideal para cada paciente. Também poderá reduzir substancialmente a necessidade de hospitalização, e seus custos associados, devido a reações adversas aos medicamentos.

Nosso conhecimento cada vez maior dos mecanismos de ação das drogas, a identificação de novos alvos de medicamentos e o entendimento dos fatores genéticos que determinam nossa resposta às drogas podem nos permitir projetar drogas que sejam especificamente direcionadas a determinadas populações ou que evitem a variabilidade genética em sua resposta terapêutica. A extensão do polimorfismo genético na população humana indica que a variabilidade farmacogenética será provavelmente um problema para a maior parte dos novos medicamentos.

O desenvolvimento da farmacogenética propicia pelo menos um mecanismo para reduzir o empirismo atual e progredir no sentido de um tratamento medicamentoso mais "individualizado". Levando em conta o impulso que a farmacogenética está tomando, principalmente após o Projeto Genoma Humano, é essencial que o tema seja ensinado como parte do currículo nas faculdades de medicina de todo Brasil.

Fonte: Bibliomed

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