COVID-19 – Conhecendo o inimigo

Autora: Profa Dra Cleonice Maria Michelon

 

COVID-19 é uma doença respiratória nova, identificada pela primeira vez em dezembro de 2019 na cidade de Wuhan, província de Hubei, na China, de onde se espalhou para o mundo. Em 11 de março de 2020 a COVID-19 foi caracterizada como uma pandemia pela Organização Mundial da Saúde. Foram confirmados até 06 de abril 1.316.388 casos e 73.039 mortes no mundo. No Brasil, até a mesma data o número de casos confirmados era de 12.056 e 553 mortes, havendo transmissão comunitária em todo território nacional, segundo o Ministério da Saúde.

A COVID-19 é uma doença causada por um novo tipo de Coronavírus (SARS-CoV-2). A família dos Coronavírus é conhecida desde meados da década de 60, sendo constituída por diversos tipos de vírus que infectam humanos e animais. Ao todo, sete coronavírus humanos (HCoVs) já foram identificados: HCoV-229E, HCoV-OC43, HCoV-NL63, HCoV-HKU1, SARS-COV (que causa síndrome respiratória aguda grave), MERS-COV (que causa síndrome respiratória do Oriente Médio) e o, mais recente, novo coronavírus (que no início foi temporariamente nomeado 2019-nCoV recebendo posteriormente o nome de SARS-CoV-2).

O SARS-CoV-2 é um vírus de genoma RNA sentido positivo, esférico, envelopado. As proteínas estruturais mais importantes são as espículas (S1 e S2), proteína de membrana (M), proteína do envelope (E) e proteína do nucleocapsídeo (N).O genoma do CoV possui sete genes que são conservados na ordem: ORF1a, ORF1b, S, OEF3, E, M, N. Dois terços do genoma correspondem ao ORF1a / b, que produz as duas replicases virais que são poliproteínas (PP1a e PP1ab). Dezesseis proteínas não estruturais maduras (NSPs) surgem do processamento das poliproteínas. Esses NSPs participam de diferentes funções virais, incluindo a formação do complexo replicase transcriptase. A parte genômica restante do vírus codifica o mRNA que produz as proteínas estruturais.

Segundo estudos, o vírus causador da COVID-19 se propaga de pessoa a pessoa através de gotículas eliminadas pela tosse ou espirro da pessoa infectada. A transmissão pode ocorrer pelo contato direto das gotículas com as mucosas ou pelo contato com superfícies ou objetos contaminados. Daí a importância de medidas preventivas como manter distância mínima de 1 metro em relação a outras pessoas e higienização frequente das mãos.

O período de incubação do vírus varia de 1 a 12 dias, sendo em média 5 dias, podendo chegar a 14 dias em alguns casos.

Para o diagnóstico laboratorial da COVID-19 estão autorizados pela ANVISA, até a presente data, 17 testes diagnósticos. Os testes disponíveis permitem a detecção do vírus pela pesquisa do RNA viral, antígenos virais, ou a detecção da resposta imune do organismo à presença do vírus, através da pesquisa de anticorpos/imunoglobulinas (IgA, IgM, IgG).

Os testes de biologia molecular para detecção do RNA viral são considerados o padrão ouro para o diagnóstico da COVID-19, no entanto, tem sido relatados resultados falso negativos. Por esses métodos, a detecção do vírus fica na dependência da presença do genoma viral em quantidade suficiente para amplificação. Tempo de replicação viral ultrapassado, procedimento inadequado de coleta do material e tipo de material biológico, podem limitar a utilização dos métodos de biologia molecular.

Em publicação na revista Clinical Infectious Diseases(Fev/2020), Xu e colaboradores, relataram o caso de três pacientes chineses com tomografia computadorizada sugestiva de COVID-19 em que a detecção de ácido nucleico viral ainda era negativa do sexto ao oitavo dia após início dos sintomas. Neste estudo, os autores sugeriram baixa sensibilidade da técnica de PCR em amostras de swabs nasofaríngeos nos estágios iniciais da doença.

Em outra publicação na revista Infections Disease (abr/2020) Hase e colaboradores relataram um caso de COVID-19 em que a paciente apresentou pneumonia com resultado negativo para PCR de swab orofaríngeo. Nova amostra de swab orofaríngeo e amostra de escarro induzido foram coletadas no quinto dia após hospitalização, sendo o teste de PCR da amostra de escarro positiva enquanto a amostra de swab orofaríngeo permaneceu negativa, sugerindo que resultado negativo em teste de PCR  de amostras de trato respiratório superior pode não ser suficiente para descartar COVID-19.

Já para os testes laboratoriais que se baseiam na pesquisa de anticorpos (maioria dos testes rápidos), os resultados devem ser interpretados com muita cautela, uma vez que, nem sempre a produção de anticorposem ,com níveis detectáveis ocorre na fase inicial da doença. Artigo publicado por Wölfel et al. (abr/2020) na revista Nature, demonstrou que após 7 dias de sintomas da COVID-19, a soroconversão ocorreu em apenas 50% dos pacientes, sendo que a soroconversão dos nove pacientes (100%) foi observada somente em 14 dias. Outro estudo conduzido por Guo et al. (abr/2020) em que foram avaliadas amostras de soro de pacientes confirmados e suspeitos para COVID-19, mostrou que o tempo médio de soroconversão para IgM e IgA foi de 5 dias e para IgG, 14 dias após início dos sintomas. Esse mesmo estudo mostrou que o teste de ELISA IgM combinado com PCR aumentou significativamente a detecção de COVID-19 (98,6%) comparado com um único teste de PCR (51,8%).

Resultados de testes baseados na detecção da resposta humoral para SARS-CoV-2 podem também sofrer influência de infecções anteriores ou reação cruzada com outras doenças. A COVID-19 pode ainda levar a resultados falsos positivos para dengue. Yan e colaboradores (mar/2020) relataram dois casos de sorologia positiva para dengue na fase inicial da doença. Como estamos em área endêmica para dengue, esse fenômeno precisa ser considerado, pois pode levar a atrasos no diagnóstico da COVID-19 e a maior disseminação do vírus.

Além das amostras de trato respiratório e de sangue, altos níveis de RNA viral foram identificados em amostras de fezes de pacientes com pneumonia por COVID-19. A realização de PCR em swab fecal é sugerida como alternativa para diagnóstico em estágios avançados da doença.

Para COVID-19 ainda não existe tratamento farmacológico ou imunobiológico específico. Alguns fármacos, como a cloroquina, administrados de forma isolada ou em terapias combinadas parecem interferir na replicação do vírus SARS-CoV-2, segundo estudos preliminares. Entretanto, a eficácia dessas terapias para COVID-19 ainda carece de comprovação. Ensaios clínicos com utilização de cloroquina e hidroxicloroquina estão sendo conduzidos em vários hospitais do Brasil, os resultados devem ser divulgados em dois ou três meses.

Várias indústrias farmacêuticas e institutos de pesquisa trabalham para o desenvolvimento de uma vacina eficaz na prevenção da infecção pelo SARS-CoV-2, no entanto, não existem perspectivas em curto prazo. Nesse cenário, as medidas de prevenção são as principais armas para contenção da pandemia.

Medidas para prevenir o contágio:

Etiqueta respiratória – Cobrir a boca com o antebraço ao tossir ou espirar, ou utilizar lenço descartável;

Higienização frequente das mãos – Lavar as mãos utilizando água e sabão ou álcool 70% em gel;

Isolamento respiratório das pessoas acometidas pela COVID-19;

Evitar tocar olhos, nariz e boca;

Evitar compartilhar artigos de uso pessoal;

Limpar e desinfetar objetos e superfícies que muitas pessoas tocam com frequência;

Evitar contato físico e manter distanciamento social, sempre que possível;

Uso de EPIs pelos profissionais de saúde.

 

Referências:

Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Diagnóstico COVID-19. Disponível em: http://portal.anvisa.gov.br/. Acesso em 01 de abr. 2020.

Chen YLiu QGuo D. Emerging coronaviruses: Genome structure, replication, and pathogenesis. J Med Virol. 2020 Apr;92(4):418-423.

 

Guo L, Ren L,  Yang S, et al.  Profiling Early Humoral Response to Diagnose Novel Coronavirus Disease (COVID-19). Clin Infect Dis. 2020 Mar 21.

 

Hase R, Kurita T, Muranaka E, et al. A case of imported COVID-19 diagnosed by PCR-positive lower respiratory specimen but with PCR-negative throat swabs. Infect Dis, 2020.

 

Ministério da Saúde – Coronavírus. Disponível em: https://coronavirus.saude.gov.br/. Acesso em 04 de abr. 2020.

Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde. Brasil – Folha Informativa COVID-19 (doença causada pelo novo coronavírus). Disponível em: https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=6101:covid19&Itemid=875. Acesso em 05 de abr. 2020.

Prajapat MSarma PShekhar N, et al. Drug targets for corona virus: A systematic review.Indian J Pharmacol. 2020 Jan-Feb;52(1):56-65.

Tang YW, Schmitz JE, Persing DH, Stratton CW. The Laboratory Diagnosis of COVID-19 Infection: Current Issues and Challenges.J. Clin. Microbiol. 2020, Apr, 3.

Wölfel RCorman VMGuggemos W, et al.Virological assessment of hospitalized patients with COVID-2019.Nature. 2020 Apr 1.

Xu J,Wu R,Huang H, et al. Computed Tomographic Imagingof 3 Patients With CoronavirusDisease 2019 Pneumonia WithNegative Virus Real-timeReverse-Transcription PolymeraseChain Reaction Test. Clin Infect Dis. 2020. Mar 31.

 

Yan G, Lee CK, Lam LTM, et al. Covert COVID-19 and false-positive dengue serology in Singapore. Lancet Infect Dis. 2020, Mar 4.

 

Profa Dra Cleonice Maria Michelon

Disciplina de Microbiologia Clínica – Departamento de Analises Clinicas – Curso de Farmácia – Universidade Federal de Santa Catarina